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A deputada federal Maria do Rosário, do PT-RS, teve seu carro levado na noite de quarta-feira, dia 27, em frente à sua casa, no bairro Chácara das Pedras, Zona Norte de Porto Alegre. O roubo aconteceu enquanto Maria do Rosário carregava o carro com a bagagem que levaria ao viajar.

Em reação à notícia, internautas fizeram chacota e o vereador da cidade gaúcha de Taquari, Clovis Bavaresco (PP), comentou que foi uma pena que ela não tivesse sido estuprada com violência, nem que não tivessem matado algum de seus parentes. Ao que parece, o vereador julga ser justo que uma pessoa seja violentada por defender o cumprimento dos Direitos Humanos.

Ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos, a deputada se tornou alvo de conservadores após um episódio lamentável protagonizado por ela e o também deputado Jair Bolsonaro em 2013. Na ocasião, houve um debate acerca da redução da maioridade penal na Câmara e veio à tona o caso do assassinato de Liana Friedenbach e de seu namorado, em 2003, por Roberto Aparecido Alves Cardoso, conhecido por Champinha, à época com 16 anos.

Depois de cumprir pena na Fundação Casa por 3 anos, Champinha foi avaliado pelo Instituto Médico Legal e considerado incapaz de viver em sociedade, sendo então interditado pela Justiça e internado permanentemente em uma instituição psiquiátrica. O crime foi usado por Bolsonaro para justificar a redução da idade mínima para que criminosos sejam condenados à prisão. Maria do Rosário, por sua vez, defende a punição já imputada ao adolescente, a qual consiste em um tipo de internação específica devido às condições mentais de Champinha.

A deputada teria dito em uma das sessões, que o posicionamento de Bolsonaro acaba por incentivar a prática do estupro, mesmo que ele não tenha consciência disso. A afirmação veio em resposta a um histórico conhecido de que o deputado tem o costume de referir-se a parlamentares do gênero feminino de maneira desrespeitosa, lançando mão de agressões morais.

Em momento algum houve registro de que a deputada estaria defendendo bandidos ou estupradores, afirmação criada pelos defensores de Bolsonaro a partir de uma interação exibida pela TV, em que o deputado diz não estuprar a parlamentar por ela não merecer, empurrando-a ainda diante das câmeras e chamando-a de vagabunda.

Entrando com ação, Maria do Rosário conseguiu que o deputado machista fosse condenado a pagar indenização por suas atitudes difamatórias e incitação ao estupro - uma vez que seu comentário implica que, para ser estuprada, a mulher teria de merecer. Recorrendo da decisão em primeira, segunda e terceira instâncias, Bolsonaro teve a condenação mantida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Esse episódio é, até hoje, usado pelos conservadores para insultar Maria do Rosário, por meio de falácias que se difundiram com a ajuda do próprio Bolsonaro [VIDEO] e de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), mesmo depois de o próprio pai de Liana, Ari Friedenbach, ter publicado uma carta aberta em que condenava o uso de sua história para fazer discurso de ódio e chamava o ato de oportunismo. Ainda assim, a deputada continua a ser alvo recorrente de provocações, insultos, tentativas de desmoralização e até mesmo de ameaças contra sua vida.

A maneira como homens e mulheres tratam a deputada é sintomática de uma população que prefere medidas paliativas para o problema da violência e que ignora a necessidade de se tratar o assunto com racionalidade. Defensores/as de punições mais severas, ignoram que a punição é aplicada depois de o crime já ter acontecido e que, portanto, não se trata de uma solução para nossa violência endêmica. Pior ainda, acreditam que a punição violenta, confundida com responsabilização, iria coibir ações violentas, quando estatísticas ao redor do mundo mostram o contrário.

Assim, em vez de termos discussões sobre como prevenir que crimes aconteçam, deparamo-nos com uma série de "cidadãos de bem" incitando crimes contra aqueles/as que não concordam com seus posicionamentos e que preferem buscar respostas mais complexas.