Era noite de vinte e quatro de dezembro, horas antes do Natal [VIDEO]. Fazia um calor terrível na capital do Amazonas. E aquele homem permanecia ali, em pé, na porta da igreja, pedindo esmola. Todos que por ali passavam, com suas próprias intenções, sequer davam conta da existência daquele pobre homem, naquele começo de noite de #Natal.

Depois que todos se acomodaram no interior do templo sagrado, aquele homem começou a chorar copiosamente. Mas porque aquele homem chorava numa noite de alegria? Ele não deveria está reunido com sua #Família?

Ao meio a tanta indiferença social, aquele homem começou a observar, impotente, as crianças que corriam contentes e ansiosas à espera de seus presentes; as donas de casa que estavam na cozinha preparando os quitutes para a ceia de logo mais; sentiu o odor inebriante dos assados que começavam a pairar pelo ar; alegrou-se com as milhares de luzes natalinas que iam acendendo uma a uma, com seu mágico colorido e, por fim, voltou a chorar observando o corre-corre dos atrasados carregando os presentes de última hora.

Um homem de estatura média, cabelos longos e grisalhos, barba por fazer e de um olhar cativante saiu de dentro da igreja e foi até aquele homem. Sentou-se ao seu lado e lhe perguntou:

- O que está acontecendo? Posso te ajudar de alguma forma?

- Não senhor. Ninguém pode me ajudar.

- Tudo bem! Mas mesmo assim gostaria de saber o que está acontecendo, e por que está tão triste.

O homem relutou, mas como se necessitasse desabafar, enxugou seu rosto e começou a falar:

- Eu nem sei mais o meu nome. Sei que me chamam de pedinte, #mendigo. Mas eu tenho dignidade, senhor! Não pego nada do que é dos outros...

Aquele homem falou, falou e falou. Em questão de minutos contou toda a sua vida, que não era muito longa, mais triste. Disse que tinha 18 anos, era casado, tinha dois filhos pequenos, que estava desempregado, que morava num casebre no outro lado da cidade e que catava latinhas de alumínio para levar alguma comida para casa.

E o homem continuou:

- Como eu lhe disse, eu tenho uma família linda, que amo muito e hoje pela manhã meu filho de cinco anos me deu uma cartinha que escreveu para o Papai Noel.

Aquele rapaz coloca a mão no bolso, tira a carta já amarrotada, talvez de tanto abri-la e entrega ao seu confidente. Aquele homem que saiu da igreja abre a carta e se emociona ao ler.

- Entendeu agora o porquê de minhas lágrimas? Um pai que não consegue nem dar o mínimo na noite de Natal para a sua família não merece existir.

O homem que saiu da igreja, emocionado e com os olhos marejados, se recompõe, levanta-se, estende sua mão em direção ao pobre rapaz e diz:

- Sim, compreendo, mas por que você está aqui sentado e chorando? Levante-se. Não perca a fé, entre e vamos orar.

- Pai Nosso que estás no céu... E o homem repetia: - Pai Nosso que estás no céu... - O pão nosso de cada dia nos dai hoje... - O pão nosso de cada dia nos dai hoje... E assim continuaram.

Chegando à sua casa, onde sua família já angustiada o aguardava na porta, adentrou de cabeça erguida.

Na cozinha, sobre a mesa, o homem viu assados quentinhos, frutas, sobremesas, doces, guloseimas em geral e até presentes para as crianças [VIDEO].

– Quem nos deu tudo isso?

– Foi um homem que deixou aqui para você.

– Que horas foi isso?

– Mais ou menos há uma hora.

E o rapaz entendeu que naquela hora ele estava na igreja, orando. A esposa não cabia em si de tanta alegria e as crianças vibravam com os brinquedos novos.

O homem retirou-se para um canto do casebre, onde mantinha uma imagem de Santa Luzia, sua santa preferida, e começou a orar:

- Muito obrigado, meu Deus. Que eu nunca mais perca a fé. A fé é a coisa mais importante que a pessoa possui. E, se eu ainda posso te fazer mais um pedido é que nunca mais eu duvide de sua bondade, de sua capacidade de fazer milagres. Eternamente teu devoto!

Agora, com a família reunida em volta da mesa, pediu que todos rezassem pelos abandonados, refugiados, oprimidos... As crianças, com vozes efusivas, começaram:

- Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.