Numa tribo do interior do Amazonas, existia um #Cacique velho e cansado, que, apesar de sua vontade e bravura, já não dava mais conta de suas funções. Todos pediam que renunciasse o cargo devido à idade avançada e sua saúde frágil. Desafiando a lei da natureza e a vontade de toda a comunidade, o velho ancião continuava desempenhando normalmente o seu trabalho. No entanto, no dia em que o seu corpo passou a não atender mais os comandos de sua mente, o cacique decidiu renunciar. Antes, porém, reuniu a tribo e comunicou a todos:

- Vou organizar um concurso para escolher o novo cacique. Assim, quando estiver escolhido o meu sucessor, morrerei em paz.

Toda a comunidade indígena voltou-se para o processo de seleção do novo cacique da tribo. Foram distribuídas as funções de forma a acelerar o processo de seleção do novo cacique, pois todos ali pensavam que aquele líder não teria muito tempo de vida.

Em tempos de crise econômica no país, muitos candidatos se apresentaram. Veio gente de todas as tribos, regiões e capitais do país. Jovens, velhos, brancos, negros, pardos; pobres, ricos, guerreiros, aventureiros se apresentaram. A maioria gente que não tinha e nem conhecia nada sobre a cultura indígena. Gente que estava pensando apenas no próprio bolso, ganhar dinheiro, fama, prestigio político, ambiental, social. Milhares de candidatos foram dispensados, imediatamente, assim que pisaram na tribo.

Depois de mais de um mês de seleção, com provas de resistência física, conhecimento gerais sobre a cultura indígena, pesca, caça e tática de guerra e de cura, restaram sete candidatos.

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Dentre os selecionados pelo cacique, todos tinham a mesma faixa etária, estatura e peso.

- O novo cacique não pode ser muito alto e nem muito baixo. Não pode ser muito magro e nem muito gordo. Também não pode ser muito jovem e nem muito velho.

Reunidos em assembleia, o cacique comunicou a todos a prova final da escolha do novo cacique, dizendo:

- O novo cacique será aquele que se casar com a moça mais bonita da tribo vizinha.

O primeiro candidato partiu às pressas. Chegando lá, foi recebido, pelo líder da tribo, com um banquete. Era comida à vontade. Como há tempo ele não havia feito uma refeição com talheres, gafos e copos limpos, comeu e bebeu de tudo o que lhe foi servido.

Era carne de caça, peixes, frutas e verduras, tudo natural, fresquinho, preparado na hora, a gosto do cliente. O primeiro candidato comeu e bebeu tanto, tudo com muito prazer, em quantidade superior àquela necessária para o seu próprio corpo, que se tornou obeso, barrigudo e feio. Certa ocasião, a moça mais bonita da tribo se aproximou dele, enquanto degustava mais uma banda de tambaqui assado e lhe disse:

- Jamais me casarei com um homem tão guloso como você.

Quando o segundo candidato chegou, foi recebido pela moça mais bonita da tribo. Como já era noite, foi levado ao quarto de hóspede. Ao sair, a anfitriã disse:

- Tenha muito cuidado com esse quarto. Aqui todos os nossos pensamentos se realizam.

Após a moça mais bonita da tribo fechar a porta, o jovem teve seus pensamentos atendidos. Sete jovens apareceram, como que do nada, para satisfazer seus desejos sexuais. Na manhã seguinte, a moça mais bonita da tribo, entrou no quarto e disse:

- Jamais me casarei com um homem que só pensa em sexo, nos prazeres carnais. Você desrespeitou os nossos costumes. Vá se embora daqui!

O terceiro candidato chegou à tribo vizinha ao meio dia, quando a temperatura estava no ponto mais alto da região e o sol brilhava no horizonte. Tudo naquele lugar era muito brilhante, reluzente. Ao longe, o terceiro candidato começou a enxergar montanhas de ouro. Começou a fazer planos de como ficaria aquele lugar quando assumisse o posto de cacique. Tornaria aquela região conhecida no mundo inteiro. Já até se via dando entrevista para todas as televisões do mundo. Ao pedir um copo com água, a moça mais bonita da tribo lhe disse:

- Tome esta água e continue andando. Aqui não tem espaço para pessoas como você que só pensa em acumular riquezas. Tudo isso aqui – a moça mais bonita da tribo abriu os braços e girou em 360º graus – não possui um único dono. É de todos, e das futuras gerações. Por essa riqueza lutamos todos os dias. Não é você que vai destruir nossa esperança.

O quarto candidato, que por detrás de uma árvore centenária, ouvia tudo o que a moça mais bonita da tibo dizia para o seu concorrente, pensou consigo mesmo:

- Deus me livre me casar com uma mulher dessas. Agora que eu conheço a geografia desse lugar, vou reunir uns capangas e tomar essa região de assalto. Vou expulsar esses índios e ficar com toda essa riqueza.

O quinto candidato e o sexto se aliaram ao quarto candidato e ambos começaram a traçar planos de invasão da tribo.

- Quem essa gente pensa que é? – indagou.

- E eu que já desfilei por passarelas do mundo inteiro, que era aplaudido pela minha forma física, pelo meu corpo esbelto, e agora estou aqui, esquecido, no meio do mato, sendo literalmente destruindo pelos insetos e mosquitos. Será, meu deus, que ainda vou recuperar a minha forma física e a admiração dos outros como antes?

Quando todos eles retornaram, o cacique reuniu a tribo e perguntou:

- Quem de vocês cumpriu a prova final do concurso? Cadê a moça mais bonita da tribo vizinha? Aquela que será a grande mãe desse lugar?

Os seis candidatos entreolharam-se. E alguém da plateia percebeu que estava faltando um candidato.

- Não eram sete candidatos? Aí só tem seis. Cadê o outro?

E todos ficaram admirados quando um jovem, de forma despretensiosa, calmo, sem disposição para o trabalho duro, parecendo meio negligente, entrou no recito, segurando a mão da moça mais bonita da tribo vizinha.

- O que é isso? – protestou um dos candidatos. Ele nem saiu da tribo. Ficou o tempo todo deitado ali na rede, no fundo da maloca. Como pode ter conquistado o teu coração. Diga-nos qual foi o argumento que o convenceu?

- Foi o gesto de me oferecer a sua rede numa noite de muito frio na região.

O cacique, então, explicou, aos outros candidatos, que eles não entendiam nada dos costumes da tribo e ordenou que deixassem imediatamente aquele lugar, caso contrário, a sua tribo voltaria a praticar o canibalismo. #Índio