Há diversos fatos e civilizações na #História que despertam curiosidade, estimulam recriações e interpretações. O Egito Antigo é um desses temas, haja vista os diversos filmes, animações, novelas e objetos inspirados na cultura da antiga civilização egípcia [VIDEO] (construções arquitetônicas – pirâmides, esfinges, templos – e a religião com os seus diversos deuses interessantes). Diversas produções que reutilizam e atribuem um novo significado aos elementos desse povo antigo.

Ainda tais criações tornam-se fontes de informações para diversos públicos, entre eles os estudantes do ensino básico formal, os quais levam para as aulas de História as ideias construídas a partir das produções citadas.

Considerando a importância de se estudar o Egito Antigo e desconstruir as idealizações ou os preconceitos sobre a civilização egípcia no processo educacional, o livro O Egito Antigo: Passo a Passo, de Aude Gros de Beler (Editora Claro Enigma e traduzido para português por Julia da Rosa Simões) revela-se interessante.

Um livro que pode ser recomendado como leitura complementar para o ensino fundamental anos finais (fundamental 2) e como um roteiro na preparação de aulas. A autora, logo no início, já disponibiliza a cronologia dos mais de 3.000 anos do Egito Antigo, inclusive, apontando os períodos do Egito Grego (332 a.C.-30 a.C.) e Egito Romano (30 a.C.- 395 d.C.).

No primeiro capítulo (O Egito e seus homens), Beler aponta os aspectos geográficos e naturais da região, explicando sobre a formação do Rio Nilo (a partir da confluência dos rios Nilo Branco e Nilo Azul), importantíssimo para os antigos egípcios, posto que era a partir condições naturais do rio que eles praticavam a agricultura: as cheias (estação de Akhet) proporcionando terras cultiváveis, as semeaduras (Peret) e as colheitas (Shemu).

Nesse capítulo, ainda, é possível refletir sobre os diversos deuses, suas funções, seus nomes, sua representatividade. E há uma lista com alguns deles, ótimo para acessar por curiosidade. Explica-se sobre o faraó, bem como sua origem divina, e aponta o nome de alguns ilustres. Coube, também, demonstrar os demais integrantes da sociedade egípcia e suas funções: sacerdotes, escribas, militares, artesão, agricultores.

Em O Trabalho no Vale do Egito (capítulo 2), a egiptóloga explica um pouco sobre algumas funções do período. Exprime como era realizada a prática de agricultura e as suas etapas: a agrimensura, isto é, as medições das superfícies do campo (a partir de uma corda com nós a cada cinco côvados, ou 3,3 metros) e a determinação de pagamentos de tributos; a prática de semeadura e lavradio; a colheita e a debulha.

A prática de criação de animais também é enunciada: gado bovino, rebanho de cabras e ovelhas, burros e aves. É possível verificar-se a evolução na composição de animais, o desaparecimento de espécies e a apropriação de outras espécies originárias da Ásia.

Há um ponto destinado a analisar as ciências. A aplicação da matemática na vida é abordada nessa questão, bem como as preocupações egípcias: o importante é o resultado. Não se esquece de pensar sobre a medicina no período, cuja função era orientar os passos a respeito de cada caso: descrevia-se o sintoma, diagnosticava-se e realizava-se o tratamento. Ainda expõe sobre a astronomia e a invenção do calendário solar.

A autora do livro destina um espaço para expor as características culturais, as relações sociais e familiares. Enfim, aspectos da vida cotidiana (capítulo 3, A Vida Cotidiana), em que se pode refletir sobre os comportamentos dos antigos egípcios e traçar uma comparação com civilizações posteriores, com a nossa sociedade atual.

Como eram construídas as casas (o uso de adobe – mistura de limo, água e palha) e as diferenças sociais marcadas pelo tamanho. Os hábitos familiares, a forma de se portar à mesa, as práticas alimentares. Entre outros aspectos da cultura, Beler trata, nesse capítulo, do mais curioso: a vida após a vida. Ou seja, ela procura explanar sobre a crença egípcia de que o falecido retornava à vida no além e os rituais de preparação para passagem, simbolizada, inclusive pela posição geográfica a partir do Rio Nilo: a Leste do rio encontravam-se os vivos, e, a Oeste ficavam os mortos. Interessante que a escolha das margens segue a orientação do sol: seu nascer se dá a Leste e se põe a Oeste (vale lembrar que na cultura egípcia quem concebeu o mundo foi Rá, o sol).

O quarto e último capítulo (Férias no Egito) proporciona analisarmos a egiptomania, ou seja, a reutilização de elementos da antiga civilização egípcia com outros significados (comerciais e turísticos). Beler utiliza de estudos históricos nesse capítulo visando desconstruir as possíveis imagens pré-concebidas sobre o Egito Antigo e apresentar uma forma para se refletir sobre o tema.

Desmistifica como as pirâmides foram construídas, eliminando a teoria dos marcianos, a ideia do uso de polias, roldanas e carroças, já que a roda não existia, e apresenta a prática que o povo tinha em construir rampas em adobe. Constata sobre o Vale dos Reis, incrustado em uma montanha da de Tebas, onde foram enterrados os reis entre 1.500 a.C. e 1.000 a.C., quando a cidade era capital do Egito, e onde foi encontrada, pela expedição de Howard Carter, a tumba de Tutancâmon. No Vale dos Reis, não há pirâmides, já que os faraós passaram a ser enterrados em tumbas mais discretas.

Como dito no início, a obra é bem interessante para ser usada como complementos pelos alunos do ensino fundamental 2, pois possui um texto bem tranquilo de ser lido e esclarecedor, composto, ainda, por ilustrações acompanhando os textos.

Beler, Aude Gros de. O Egito Antigo: Passo a Passo. Ilustrações de Aurélien Débat. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Claro Enigma, 2016.

Aude Gros de Beler é arqueóloga e egiptóloga da Universidade de Nîmes-Vauban, na França. #Resenha #EgitoAntigo