Pantera Negra (2018) fez a quinta maior bilheteria de estreia dos Estados Unidos. As razões não são difíceis de entender e vão para além de modismo e marketing bem feito. Enquanto filme de herói, é muito acima da média, mesmo entre as produções dos estúdios Marvel.

Seu apelo mítico, retirado de uma gama de tradições tribais africanas, aliado a estética pré-afrofuturista explorada pelos quadrinhos da década de 1960, é responsável por criar um universo muito particular para o herói.

Sobretudo o apelo mítico, coloca questões universais, tais como: tradição, família, traição e, sobretudo, a questão do duplo.

No filme, todo esse estofo cultural herdado, em grande medida, da luta pelos direitos civis dos anos 1960 (o próprio nome do herói é uma referência ao partido dos Panteras Negras), é trazido para o presente de modo a colocar questões que permaneceram em aberto desde então, e que são retomadas pela militância negra atual.

As questões colocadas são muito sérias e de difícil resolução, ainda que o filme tenha uma tese clara.

No universo do filme/quadrinho, há uma civilização altamente desenvolvida no coração da África, chamada wakanda. Essa civilização alia suas tradições tribais a uma tecnologia muito superior a existente no resto do mundo. Toda essa tecnologia está baseada naquele que é considerado o metal mais resistente do mundo, o cobiçado vibranium.

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Cinema

Para manter sua civilização intacta, wakanda esconde seu maior tesouro e seu alto desenvolvimento do resto do mundo, mas um homem chamado Ulysses Klaue (Andy Serkis), um contrabandista inescrupuloso, conseguiu, no passado, roubar uma parte deste metal.

Com a morte do rei de Wakanda, T’Chaka (John Kani), o príncipe herdeiro T’Challa (Chadwick Boseman), chega ao trono, ganhando também o posto e os poderes de Pantera Negra.

Conforme T’Challa compreende a dificuldade de seu novo papel e descobre os segredos do reino de wakanda, ele passa a questionar o protecionismo político de seu país.

É daí que se ergue a grande, e nada ingênua, questão do filme: deveria a civilização superdesenvolvida de wakanda partilhar sua tecnologia e seu vibranium com o mundo, sobretudo com as comunidades negras que conhecem uma realidade bastante diversa daquela do reino paradisíaco?

Sim, é a resposta de Erik Killmonger (Michael B. Jordan), um wakandano que, tendo conhecido a violência e a miséria sofridas pelo povo negro no mundo, em especial nos Estado Unidos, virá para disputar o trono com T’Challa.

No fundo, T’Challa e Killmonger encarnam o mito do duplo, eles se opõem, mas também se completam. T’Challa hesita em ceder ao mundo a tecnologia de seu reino, e Killmonger revela-se como consequência da privação absoluta que o povo negro sofre fora de wakanda.

É significativo que Michael B. Jordan tenha dito que o personagem Zé Pequeno, do filme Cidade de Deus (2002), tenha sido uma grande referência para seu personagem. Killmonger e Zé Pequeno são jovens sem perspectivas, cujas comunidades foram abandonadas pelas autoridades, cheios de raiva e seduzidos pela violência.

Tudo isso gera um niilismo tipicamente urbano, que, ao final, pode resultar na destruição de todo e qualquer valor e tradição (por mais que se fale em nome deles). É essa perspectiva que assusta o Pantera Negra e seu povo tão enraizado.

De alguma forma, T’Challa, com seu pacifismo e diplomacia, retoma a militância de Martin Luther King, e Killmonger, com seu belicismo e agressividade, retoma a militância de Malcom X. São teses opostas que visam o mesmo fim.

Não há uma dicotomia tão clara entre bem e mal, o vilão e suas motivações são profundamente humanizados. É verdade, porém, que o vilão é movido também por vingança e rancor e é isso que o torna especialmente perigoso e ‘’malvado’’’.

A tese do filme, ao final, aproxima-se de um discurso pacifista, o próprio filme é uma manifestação desse tipo de militância: uma militância que se faz via instituições, pelo mercado e pela indústria cultural.

Em que pese as possíveis contradições desse tipo de militância, tão existentes quanto as contradições de uma militância agressiva (e aqui não falo somente sobre a causa negra), Pantera Negra tem se mostrado bastante eficiente.

Como dito, esse sucesso todo não é por acaso: o filme entretém e sabe ser tão sóbrio quanto exige o assunto, mas sem perder o humor, fornecido quase sempre pela irmã de T’Challa, Shuri (Letitia Wright), que sempre dispara comentários espirituosos. O fato, enfim, é que todos pararam para ver o herói negro e saudar “vida longa ao rei!”

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