Quando criança, Guillermo Del Toro [VIDEO] ficou obcecado. Foi uma obsessão tão intensa que talvez ela só tenha se resolvido com o lançamento de A Forma da Água (2018), aos 53 ano. Essa obsessão é por criaturas aquáticas humanoides, sim, exatamente como a personagem Abe Sapiens da franquia Hell Boy (2004 e 2008). Muito embora Abe não tenha sido criada por Del Toro, ele certamente foi uma das razões para que o diretor a se aproximasse da franquia.

A responsável por criar essa ideia fixa em Del Toro foi a criatura de um filme chamado O Monstro da Lagoa Negra (1952), em que um homem-peixe da Amazônia se apaixona pela única integrante mulher de uma expedição que tenta capturá-lo.

Mas o que se pode perceber, e o diretor faz questão de deixar bem claro com seu novo filme, é que mais do que aficionado por humanoides aquáticos, Del Toro também é pela magia e pelas possibilidades do cinema.

A Forma da Água [VIDEO] escancara sem pudores as obsessões primordiais de seu diretor, é como se ele buscasse condensar os elementos que mais marcaram sua infância numa só obra. Não é à toa que o filme se constitui a partir de uma atmosfera nostálgica. Afinal, o filme se passa na década de 1960, época em que Del Toro era apenas uma criança.

Mas mais do que boa nostalgia, o contexto da Guerra Fria e da corrida espacial traz um pano de fundo sombrio que revelará toda a vileza de que o humano é capaz. O enredo do filme se concentra em Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda que trabalha como faxineira num laboratório que recebe uma criatura muito semelhante àquela de O Monstro da Lagoa Negra, e que também foi capturada na América do Sul.

Diferente da criatura do filme de 1952, o homem-peixe de Del Toro é muito mais humanizado, capaz de desenvolver empatia e amor profundo, em vez de uma obsessão doentia e selvagem (quase oposta à edificante obsessão de Del Toro, capaz de entregar um belo fruto). Eliza e a criatura vão se apaixonando aos poucos, mediando sua comunicação pelos sinais de libras, por ovos e pelas aconchegantes músicas dos musicais da Era de Ouro de Hollywood.

É claro, porém, que os interesses na criatura são muitos - e isso inclui os governos americano e soviético - para que a história de amor entre Elisa e seu príncipe anfíbio pudesse se desenrolar sem maiores percalços. É aí que entra Strickland (Michael Shannon), o responsável pela segurança do laboratório que encarna a personalidade mesquinha e autoritária por excelência.

Dessa maneira, o filme amarra sua grande questão: a das minorias políticas. Embora o assunto esteja em voga, e muitas vezes seja tratado de forma vulgar, não obstante sua relevância evidente, Del Toro consegue abordá-lo de forma tão sutil quanto politizada.

A mudez de Elisa não é gratuita, ela representa os que não tem voz e associa-se a eles: sua melhor amiga de trabalho, Zelda (Octavia Spencer), é negra e seu vizinho de porta Giles (Richard Jenkins) é homossexual. Numa década em que se vivia o apartheid e em que os modelos de masculinidade eram absolutamente rígidos, Elisa e os seus não tinham vez.

Muito a propósito, aliás, Strickland é um homem branco que se vangloria de seu vigor autoritário e presumidamente másculo. Mas se Del Toro retoma o assunto não é por acaso, e sim porque, sobretudo nos Estados Unidos atual, ele vê um possível retrocesso no que tange a questão das minorias.

Também não é por acaso que ele faz Filmes, e em especial este filme. A Forma Da Água não só constrói seu conteúdo em cima de outro filme, como homenageia os musicais da década de 1950, reprisados na TV de Giles e dançados por Elisa, e acaba por consagrar o cinema como lugar de libertação das vozes reprimidas.

Os apartamentos de Elisa e de Giles ficam sobre um velho cinema. É neste cinema que um dos grandes conflitos do filme se resolve. Sem maiores spoilers, é importante notar que os musicais de fato emprestam voz à Elisa durante sua maior angústia.

Por mais clichê que seja dizer isso, o novo filme de Guillermo Del Toro é realmente uma ode ao cinema. Uma consagração do cinema. Assim como Elisa devota seu amor ao príncipe anfíbio, o diretor devota seu amor ao cinema.

De alguma forma o príncipe anfíbio não é só metáfora para o excluído, ele é também metonímia do cinema, pois ele só é possível através da magia cinematográfica: A Forma (como o vilão chama o homem-peixe) da água ganha vida através da forma, da linguagem cinematográfica. Assim, com muita sensibilidade, Del Toro pode dar vida a sua nobre versão do monstro marinho, transformando-o em nobre criatura das águas e dando um fim a sua obsessão de anos.