Após sua morte, a ex-vereadora do PSOL-RJ Marielle Franco passou a ser alvo de ataques insanos com milhares de compartilhamentos de Fake News a respeito de sua biografia. Uma desembargadora, um deputado federal e o Movimento Brasil Livre estão entre os que serão acionados, judicialmente, acerca de suas declarações contra a dignidade da ativista de direitos humanos.Tendo tomado proporções inaceitáveis, a EJS Advogadas, sediada na capital fluminense, representará ações contra a desembargadora Marília Castro Neves, o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) e o MBL - Movimento Brasil Livre.

Ambos atacaram a ex-vereadora, em suas redes sociais, com Fake News e serão alvos de ações no Conselho Nacional de Justiça e na Comissão de Ética da Câmara, respectivamente. Quem tiver a mesma ideia deve se preocupar.

Prints caluniosos são encaminhados para o e-mail do escritório que, a partir daí, iniciam as apurações.Se pudesse se comunicar, mesmo estando morta, Marielle Franco publicaria o seguinte texto:

Venho, por meio desta, dirigir-me a vocês, homens de bem, de reputação ilibada, missionários e conservadores, guerreiros postulantes da ética e de moral irretocável para lhes contar fatos desconhecidos sobre minha execrável pessoa.

Nasci negra em uma comunidade carente - ou preta em uma favela, se assim preferirem - na capital do estado do Rio de Janeiro, em 1979. Fui católica, frequentava as missas e com apenas 11 anos de idade eu já trabalhava para investir em meus estudos e ajudar meus pais em nosso lar. Ainda adolescente me tornei educadora infantil em uma creche no Complexo da Maré, onde me criei.

Luyara, que neste ano completará 20 anos de idade, nasceu em 1998 mas nem por isso eu deixei meus objetivos de lado e tive a coragem de educá-la enquanto eu educava a mim mesma, matriculando-me em um curso de pré-vestibular gratuito oferecido no morro.

Apesar de ser tratada como contraventora por ser negra e moradora de favela, como a maioria dos favelados são, eu não tinha pretensão nenhuma de hastear bandeira por qualquer que fosse a causa até uma amiga ser assassinada, no ano 2000, durante tiroteio envolvendo Polícia Militar e marginais. Como eu disse, "no morro todo mundo é bandido" na visão de muitos policiais. Sei que não são todos, por isso nunca generalizei, pois, acreditem, também há PMs que moram em favelas como milhões de trabalhadores. Mas, naquele dia, eles subiram atirando a esmo, ignorando centenas de moradores que não tinham ligação alguma com o narcotráfico ou outros Crimes. É sempre assim. Então passei a militar em movimentos por direitos humanos.

Eles chamam de "balas perdidas" munições que encontram inocentes, todos os dias, na capital fluminense. Para piorar ainda mais o fato de que o poder público pouco se importa com a comunidade miserável, autoridades concedem entrevistas nomeando os assassinatos por "fatalidades". Não são fatalidades, são execuções, digamos, equivocadas.

Eu queria me graduar para poder ajudar, de alguma forma, o povo PPF como eu. Há... PPF quer dizer "preto, pobre e favelado", sigla criada, com certeza, por algum negro pois não há racismo no Brasil. Enfim; formei-me em Ciências Sociais pela PUC-RJ e, posteriormente, fiz mestrado em Administração Pública pela UFF (Universidade Federal Fluminense).

No ano de 2006, nas eleições estaduais, apoiei Marcelo Freixo (PSOL-RJ) para a Assembléia Legislativa do Estado e, com sua posse, fui nomeada sua assessora até ser designada a assumir a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ. Eu adorei a oportunidade. Lá, tive a chance de ajudar mulheres brancas e negras, faveladas, vítimas de Violência contra a mulher e famílias de pessoas que protegiam a população carioca e que acabaram assassinadas por bandidos. Estou falando de POLICIAIS MILITARES. Exatamente os mesmos que critiquei no quarto parágrafo desse texto. Não fazia distinção sobre policial que matou, ou não, algum PPF afinal, eu era coordenadora de DIREITOS HUMANOS e esses direitos são para todos, embora muitos de vocês prefiram dizer que só os bandidos é que os tem.

Em geral as dificuldades de esposas e filhos de policiais mortos era conseguir formas de se manterem sem os recursos financeiros do provedor da família. Tudo sempre foi muito burocrático e papéis iam se acumulando nas gavetas. Minha missão era a de tirá-los de lá e colocá-los em processos para que houvesse, com urgência, as concessões de pensões por morte ou aposentadorias a agentes inválidos pelo exercício da profissão.

A vontade de crescer na política e de combater a politicagem me fez vislumbrar uma candidatura à Câmara Municipal nas eleições de 2016. Recebi 46 mil votos que vieram de PPF, Policiais Militares e trabalhadores comuns, embora a ilustre desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Marília Castro Neves acredite que fui eleita graças a membros e simpatizantes do Comando Vermelho. Agora que estou morta e não posso contestar ninguém, tampouco defender-me das mentiras absurdas que me creditam, todos acham que podem falar o que bem entender sem, sequer, saber uma vírgula da minha biografia.

Em um ano e alguns meses no cargo de vereadora eu elaborei e apresentei aos meus pares, na Câmara, dezesseis projetos de Lei dentre os quais dois foram acatados pela Casa: um que regulou o serviço de mototáxi e, outro, a Lei das Casas de Parto com vistas à construção de espaços que fomentem a realização de partos normais, principalmente, em comunidades carentes.

Parte importante da minha breve biografia está exposta e o que está oculto não é do interesse popular.

Decidi dizer tudo isso porque estou indignada com tantas pessoas inteligentes, algumas até com formações acadêmicas mais valorizadas do que as minhas, compartilhando mentiras sobre mim, as chamadas Fake News. Não posso acreditar que uma desembargadora, que já foi Procuradora de Justiça no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e Defensora na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, tenha utilizado suas redes sociais para dizer que os quatro tiros que levei referem-se a um acerto de contas com uma facção criminosa que, segundo a magistrada, era credora de favores a mim.

O ápice das mentiras foi a foto de uma garota de programa sentada sobre o colo de um rapaz. Disseram que a garota sou eu e o rapaz é o traficante Marcinho VP. Não sei se choro ou se dou risadas mas, como estou morta e não posso dizer nada em minha defesa, fico contente em saber que diante dos ignorantes há centenas de pessoas lutando para que, pelo menos, minha dignidade seja preservada.

E o MBL - Movimento Brasil Livre, que compartilhou a mentira e fez com que a Fake News recebesse mais de 38 mil curtidas e 28 mil compartilhamentos? Sim, o MBL, movimento que exponenciou Renato Oliveira, subsecretário de Comunicação do prefeito de Embu das Artes, Ney Santos (PRB), acusado de ser autor de uma tentativa de homicídio ocorrida em dezembro de 2017 contra um jornalista do município, crítico da administração municipal.

Também tem outro canalha, Alberto Fraga, deputado federal pelo DEM (antigo PFL, uma das siglas mais corruptas nos tempos de governo FHC). Esse cidadão disse que engravidei aos 16 anos, que fui casada com Marcinho VP e outros absurdos.

Sabem, resolvi escrever tudo isso mas se você chegou até aqui vai entender que bastava eu pedir "PESQUISEM antes de compartilhar" para resumir tudo isso.

Porém, senti a necessidade de expor as feridas que se abriram em mim além das quatro perfurações das balas que tiraram minha vida. Depois de morta eu acabei, também, esquartejada com vários pedaços de mim sendo distribuídos em mentiras podres. Perdoem-me pelo desabafo.

Deem um beijo na Lu, por mim. E fiquem em paz!Marielle Franco

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