O longa her(2013) ou "Ela", em português, conta a história de um escritor bastante sensível em um futuro distópico. A trama se desenrola a partir da relação entre o personagem Theodore e seu novo sistema operacional. Mas como assim?

Sim, estamos falando de um amor que supera os limites do que se define, até então, por ser humano. Por que, então, falamos de “Her”? O que a obra nos diz sobre o sentimento de solidão humana, sobre a ruptura e a forma das culturas, o afeto, o diálogo, a paixão, a individualidade e a loucura?

Estaria a ficção imitando as emoções humanas ou o contrário?

Com cenas delicadas e cotidianas que se passam na cidade de Los Angeles (EUA), o diretor Spike Jonze surpreende o espectador em cada fala e em cada olhar de Theodore. Ele que aqui representa a esperança de que, mesmo se a tecnologia superar a inteligência e a capacidade de criação humana, ainda assim, não estaremos perdidos.

Theodore nos dá a possibilidade de ver como tudo é possível mesmo depois da superação da necessidade de laços humanos reais, contínuos.

Mesmo sozinhos, não seriamos selvagens. Mesmo que certamente alienados pela cultura virtual e de massas, seríamos capazes de amar e sermos amados.

Mas, para além do conflito virtualidade versus materialidade, do que fala ‘’Her’’? Da insanidade urbana, que, no caso de São Paulo, estaria sustentada nas bases morais da elite paulistana (classe média) de Marilena Chauí? No debate das dimensões do corpo e da alma?

Não perca as últimas notícias!
Clique no tema que mais te interessa. Vamos te manter atualizado com todas as últimas novidades que você não deve perder.
Cinema

Dos limites da relação entre humanos e máquinas? Do eu versus o estrangeiro teorizado pelo filósofo George Simel?

Da gratidão de “ser quem realmente é?”, instrumentalizada atualmente pelo nosso senso comum? O filme fala de muitas coisas, mas discorre, principalmente, sobre a qualidade de depender e se aproximar do outro – sendo esse outro um ser humano com todas as complexidades pressupostas ou mesmo uma voz programada e codificada para interagir com o mesmo.

Faz pensar o que é o contato humano. ‘’Her’’ salta aos olhos de quem busca o que é genuíno, doce, algo que nos leva a pensar no amor romântico e na subjetividade inata à nossa espécie.

“Os insanos são os que pensam em bárbaros e selvagens, somos todos iguais”, disse, em uma aula aberta, a socióloga e filósofa brasileira Marilena Chauí. Ela afirma que a civilidade cotidiana mascara uma real brutalidade e violência existente nas relações humanas.

“Reacionária conservadora, autoritária e conservadora”. Para ela, “é uma coisa sinistra a cidade de São Paulo, é uma coisa de uma violência extrema”. Isso explica-se, historicamente, pelo desenvolvimento de elementos como o autoritarismo na metrópole, enraizados na naturalização da violência da classe dominante.

Uma sociedade que apresenta grandes índices de criminalidade e de violações de direitos humanos (seja no que diz-se, o golpe midiático, ou a chacina juventude negra e periférica por parte da Polícia Militar do Estado).

De uma forma ou de outra, chegamos às raízes do imperialismo e do neoliberalismo do século XX.

“Todas as empresas têm um conjunto de regulamentos sobre a conduta dos seus empregados. Desde a pontualidade ao vestuário. Tudo é regulamentado, e isso é chamado de a ética de empresa”. Segundo ela, a sociedade paulistana acredita, massivamente, que isso é a ética.

Daí em diante, o fenômeno se espalha pela cultura e da vida social daquelas pessoas. Isso sem citarmos a manipulação de informações de interesse público exercidas diariamente pelos grandes monopólios midiáticos.

Nessa ambiência, o diretor Spike Jonze dá um salto no tema da relação intersubjetiva. Ele não têm uma Máquina do tempo ou efeitos especiais em sua obra, mas definitivamente domina a arte de contar uma história cativante ao espectador. Também suscita a ética sentimental, a iniciação no amor pós-moderno e as questões do indivíduo consigo, sendo seu próprio psicanalista.

E se as máquinas falassem, nos sentissem? E se pudéssemos amá-las como amamos nossos primos e amigos? Quais inversões isso traria na sua vida? Você poderia perder o controle sobre o que você consome, e, a partir daí, quais seriam os seus valores?

“I can still fell you... its a place where all other things are. This is you are now, this is who I am now” coloca em questão a função de educação sentimental impregnada pelo filme. “Onde você está, Catherine? Se um dia você chegar lá, venha me encontrar. Eu te amo. Eu também. Ninguém sabe como”, diz Theodore, sedento em viver outros capítulos dessa trama com sua amada Catherine.

O filme grita, enfim, por uma melhor descoberta do que é o amor, a verdade e a representação destes em uma sociedade que deverá lidar com os paradigmas do que há entre os homens e mulheres e a tecnologia. Nos ensina, de longe, a estarmos abertos ao que a dinâmica da vida pós-moderna pode vir a nos oferecer (mesmo que, diante de nossos olhos, aquilo pareça mentira, ficção).

Não perca a nossa página no Facebook!
Leia tudo