Você já parou para pensar que a vida humana é feita mais de esquecimento do que de Memória? Faça você mesmo um teste, aí onde você se encontra, do jeito que você se encontra, sobre o que você se lembra. Você vai concordar comigo que lembramos poucas coisas, apenas daqueles fatos, acontecimentos, situações ou pessoas que nos afetaram de alguma maneira.

O filósofo Espinosa (1632-1677) afirma que somos corpos que se relacionam com outros corpos, quando sofremos suas afeções, quando somos afetados pelos outros corpos, sofremos uma alteração, uma passagem, nossa potência aumenta ou diminui.

Destas afeções, ocorrem os afetos, uma experiência vivida. Assim, a essência da vida humana para esse filósofo é afetar e ser afetada por alguém ou por alguma coisa.

Na mitologia grega, a memória era uma deusa, a deusa Mnemosyne. Como deusa, ela era cultuada pelos gregos. E qual era a função das deusas na mitologia grega? Gerar a vida. Enquanto geradora de vida era valorizada, divinizada, endeusada.

A deusa Mnemosyne era tida como a protetora das artes e da história. Por sua relação íntima com o patrimônio cultural, a deusa Mnemosyne é considerada a mãe das musas.

Infelizmente, o homem contemporâneo não cultua a memória como deusa e sim como mercadoria, isto é, usa a memória apenas pela necessidade de acumular informações para obter sucesso profissional. Isto tem levado a uma busca incessante por livros e métodos que prometem o incremento da capacidade de memorização.

Atualmente, a memória torna-se meramente um instrumento para alcançar sucesso pessoal.

Entre os jovens contemporâneos, esse caráter utilitário da memória parece que está predominando, haja vista a ânsia de êxito em provas, vestibular e, principalmente, em concursos públicos. Entretanto, não podemos esquecer que a memória não é um simples depósito. Para ser eficiente, enquanto fonte informação, também exige inteligência, sagacidade, sensibilidade e a capacidade de realizar associações e abstrações.

“Só sei que nada sei” é uma famosa frase atribuída ao filósofo grego Sócrates que se contrapõem a essa visão utilitarista da memória. Para ele, o que sabia era muito pouco em relação aquilo que desconhecia. O fato de se reconhecer humilde, lhe colocava em vantagem sobre aqueles que achavam que sabiam alguma coisa.

Em suma, a humildade é parte constituinte do conhecimento. Se isto não fosse verdade, René Descartes não teria dito: “Daria tudo o que sei pela metade do que ignoro”.

Ou Isaac Newton não teria afirmado: “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano”. Enfim, precisamos cultivar a memória como deusa e não como instrumento para atingir um fim. A memória é fim em si mesmo, não é meio. Sem memória a vida humana não faria sentido algum. E viva a deusa Memória!

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