Como professor de filosofia há mais de 17 anos, tanto em escola pública quanto em instituição privada, no ensino médio ou no ensino superior, a pergunta que mais ouço dos meus alunos é: “Para que serve a filosofia, professor?”

Em primeiro lugar, esta questão até pode parecer óbvia para muitos, mas jamais para um filósofo. Para a filosofia, esta pergunta diz muito sobre a forma como vive o homem atual. Emergido numa sociedade de consumo, ele só consegue enxergar aquilo que obedece a lógica do capitalismo, do imediatismo, do útil.

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Em segundo lugar, deve-se dizer que a filosofia não é produto e sim processo. Por isso mesmo, ela é marginalizada, tratada como “produto de segunda categoria”. Tem gente – e muita gente - que até defende a saída imediata da filosofia dos currículos escolares. O que me parece um tanto quanto absurdo.

Para a filósofa brasileira Marilena Chauí, no seu livro Convite à Filosofia (2004), - e nós concordamos com ela -, “a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes”.

Disso decorre que precisamos de uma mudança de estratégia: a Educação deve ser voltada para o pensamento, para a reflexão e não apenas para a produção de bens de consumo e serviços.

Para aprendermos como a natureza funciona temos que prestar atenção, olhar para o mundo sem qualquer tipo de preconceito. Qual ciência ensina tal princípio se não a filosofia? Mudar nossa visão de mundo não é fácil, mas esse é o caminho se quisermos sair do estado de barbárie no qual o homem contemporâneo se encontra.

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E a filosofia pode ajudar muito nesse processo!

A filosofia é a história do pensamento humano dedicado a investigar os problemas no decurso do tempo, elaborar o conhecimento que satisfaz o anseio de saber e colocar soluções compatíveis com a possibilidade das espécies e da capacidade intelectiva do homem na imensa problemática da realidade existencial. É para isso que serve a filosofia. Quer algo mais importante do que isso?

Segundo Aristóteles, a filosofia “consiste em todas as coisas que o homem conhece e o conhecimento dessas coisas.” Para este filósofo, o desejo de conhecer é inato ao ser humano e se manifesta na forma de perguntas – como, por que – desde a infância.

Continua ele: “O desejo de saber é tão velho quanto a humanidade, e o conhecimento filosófico é a mais elevada expressão da necessidade de saber,” Eu acredito nisso. Eu defendo isso. Esta é a minha profissão de fé!

Acreditamos que não é apropriado para a didática desse artigo defender as várias razões da existência da filosofia na sociedade atual, porém, para ilustrar, apresentamos apenas a importância da educação para o questionamento. Vamos fazer um exercício imaginativo. Imagine você vivendo numa sociedade onde não fosse lhe dado o direito de questionar.

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O que você seria? Um objeto, não é mesmo! Pois, bem! A sociedade que pede a retirada da filosofia das escolas quer transformar você em um ser acéfalo, sem pensamento, um robô.

A filosofia defende o questionamento como sendo a essência do ser humano. Mais ainda. Ela afirma que uma pergunta equivale a mil respostas. Daí dizer-se que “o homem sábio pergunta, enquanto o homem ignorante responde.” Pergunte sempre, responda quase nunca!

Na verdade, responda somente quando for extremamente necessário. Isso porque são dos questionamentos que surgem os novos conhecimentos. Enfim, a ciência sem pergunta é uma religião monoteísta.

Dessa forma, os filósofos se questionam sempre: por que estou escrevendo o que estou escrevendo? O que significa dizer que o homem é um ser de linguagem? O que seria do ser humano sem a capacidade de questionar? Ele seria um ser humano ou seria uma couve-flor? (com todo respeito ao vegetal).

Que explicação pode-se dar ao fato de vivermos organizados em coletividades em vez de existirmos isoladamente? O que você faz para ser feliz, independentemente do que os outros pensam sobre você? Como você se comporta quando recebe um elogio? E quando recebe uma crítica? Você se comporta da mesma maneira?

Por esses e outros motivos, a essência da filosofia é o questionamento. O filosofar é a ferramenta que o filósofo utiliza para tornar natural o ato de perguntar. Por fim, observe a sociedade atual. Ou se você ainda não está convencido de meus argumentos sobre a importância da filosofia e dos filósofos, consulte o oráculo moderno, também conhecido como Google. Lá você vai encontrar respostas para tudo, inclusive sobre você mesmo, eu aposto!