‘’Como Ver Um Filme’’, da escritora Ana Maria Bahiana, é um dos Livros mais interessantes que li nos últimos meses. O nome talvez engane os mais exigentes - como eu, assumo - porque marca a obra com um aspecto de "manual".

A impressão é falsa, porque nele encontramos uma rica mistura da listagem - corriqueira nesses casos - dos aspectos técnicos que compõem a produção de um filme - roteiro, montagem, divisões em gêneros etc.

- com vários comentários críticos ricos e estimulantes. Eles estabelecem conexões entre o cinema e a vida, além de temas filosóficos, políticos e questões estéticas normalmente associadas ao Cinema, como as implicações emocionais dos filmes, o tópico fundamental da criatividade, o problema dos heróis e anti-heróis, dentre vários outros.

O McGuffin

O destaque vai para duas reflexões que me parecem das mais importantes.

A primeira é sobre o McGuffin, técnica inventada pelo Hitchcock para sustentar o suspense das tramas até o final. Consiste na produção de sutis pistas falsas que, aos poucos, vão alimentando brechas de enigma na narrativa e na mente dos expectadores, ao mesmo tempo em que o resto da história continua a se desenrolar.

O McGuffin aparece comentado em um dos últimos romances do escritor espanhol Enrique Vila-Matas.

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"Não Há Lugar para a Lógica em Kassel", de 2014, no qual o autor parece pôr em questão o próprio sentido da existência da obra de arte - no caso o romance, gênero que, para ele, sofre profunda crise no cenário contemporâneo.

É possível ler o tema do McGuffin em conexão reflexiva com o conceito de paródia do filósofo italiano Giorgio Agamben, elaborado em seu livro "Profanações", e com o problema da incompletude, trazido pela física moderna, dentre outras associações possíveis.

O McGuffin é um grande estado de drible praticado pela inteligência e estendido a um nível radical de rigor, para além da beleza e do sentido de sublime que carrega toda surpresa, quando bem praticada.

A 'evolução' dos gêneros cinematográficos

A segunda questão levantada pelo livro de Ana Maria Bahiana é a do processo de "evolução" - termo perigoso, que uso aqui com ressalvas, porque demandaria várias considerações para além do que um rápido texto pode suportar - dos gêneros cinematográficos, conforme vão sendo produzidas as obras.

Como toda arte, o cinema tende a fazer brotar os seus criadores eventuais, que em um dado momento revolucionam a forma de se narrar uma história. É o caso do ‘’Nosferatu’’, de Murnau, que em 1922 cria um estilo radicalmente novo de suspense vinculado às criaturas monstruosas retiradas da Literatura.

Ana Maria Bahiana lembra, então, que essas novidades acabam por germinar um intenso processo de deslocamentos, que passam pela repetição de elementos trazidos com a inovação em filmes semelhantes, pelo estabelecimento do gênero como um estilo clássico, pelos excessos, que decaem em inevitáveis fórmulas e clichês; depois pela crítica, que busca alternativas de narração pela via do atrito.

Por último, por um conjunto de desmembramentos que se dá em três formas (que podem, também, ser subdivididas). A sátira, que põe em xeque o próprio caráter clássico das obras pela via do humor; o metafilme (ou aquilo que o escritor Gustavo Bernardo chama de "metaficção"), que também pode ser chamado de paródia da forma ou forma-paródia, quando se põe em questão a própria forma de narrar através dela mesma - o filme "8 e Meio", de Fellini, é um dos maiores exemplos desse estágio, em relação ao próprio cinema como um todo.

Finalmente, o hibridismo, que joga o gênero e os filmes que ali se alocam na grande selva das mestiçagens artísticas, que misturam elementos e formas narrativas diferentes no mesmo caldo, para ampliar a complexidade das situações e das histórias presentes nas obras.

Uma das maiores riquezas dessa reflexão e do entendimento desse tema está no fato de que ele pode ser, inclusive, aplicado a outras artes, como a literatura, a pintura, o teatro, e mesmo em outras áreas do pensamento e da vida, como a filosofia, a política, a história, o cotidiano etc. Enfim, livro muito rico e extremamente recomendável.

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