Bem equalizada para o horário das 19h, O Tempo Não Para é uma aula de história a cada capítulo. A trama traz para o século 21 marcas do inegável passado vergonhoso da história do Brasil: a escravidão e a dívida histórica gerada com os negros que aqui fincaram raízes, sobreviveram e seguiram seu caminho após a abolição.

Como estamos pagando a dívida histórica?

Como bem disse o Cabo Daciolo [VIDEO] durante um debate entre presidenciáveis, a dívida histórica possivelmente é impagável.

Cotas raciais em universidades foram criadas no intuito de amenizar o grande desnível social que temos, visivelmente notado nas ruas e em todos os nichos da sociedade. A abolição deu a liberdade apenas sem perspectiva de melhoria ou de futuro, jogando-os numa árdua jornada que levou a maioria para a pobreza, inaugurando um novo conceito de moradia com o fim das senzalas: foi o nascimento das favelas, do termo “marginal” associado não a quem morasse às margens do rios e cidades, mas a bandidagem em consequência da pobreza.

Mário Teixeira se preocupou em tocar na dívida história com os negros com naturalidade, sem apelar para cotas e até mesmo ironizando o próprio preconceito e expressões chulas corriqueiras que sempre foram ditas e agora esbarram no politicamente correto. Ao dar um outro enfoque a todos os personagens negros da trama, sejam os escravos congelados ou a geração do novo milênio, nenhuma história é desperdiçada.

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Novelas

A história de cada escravo é contada e desenvolvida até chegar ao empoderamento. Cesária, ama de leite, juntou joias de crioula e agora é rica; Menelau, que tem cicatrizes do tronco do antigo dono, agora assume sua força pra trabalhar faz terapia pra melhorar auto estima; Damásia cozinheira de mãe cheia, se torna empregada, mas com talento de ser chefe de cozinha; Cairu, filha e neta de reis na África, tem sua beleza reconhecida e se torna modelo profissional; e Cecílio, a historia mais emocionante, escravo tigre que limpava latrinas, descobre que é filho de seu senhor e faz teste de DNA pra exigir seus direitos.

A novela também nos prestigia com reviravoltas interessantes. No caso de Cecílio, o desfecho para surpresa do público, será que Dom Sabino, sabendo que o exame dá negativo, não conta a verdade e assume Cecílio como filho, mas o público saberá que ele comprou o bebê de uma escrava parida que morreu no tronco, vítima de uma monstruosidade de seu senhor, fatalidade típica naquela época.

Já no tempo atual, temos personagens empoderados e lutadores, como Eliseu puxando a carroça de reciclados; Paulina, batalhadora que cuida do pai sem saber que é seu avô; e Vanda, advogada linha dura que nunca sorria e agora se derrete por Menelau, o escravo duro na queda.

Também temos Mazé, empreendedora que enfrenta barreiras ao colocar o filho negro em escola de elite branca, deixando claro que dinheiro não é problema. Espaço ainda para a autocrítica ao povo brasileiro, representada por Coronela, que confrontada por Cesária, nega seu próprio tom de pele e suas raízes, orgulhosa de ter filha branca e ser viúva de militar, se achando na mais alta patente. A riqueza dos personagens e suas controvérsias são mesmo de se elogiar.

Segundo Sol

Em contra partida, Segundo Sol, acusada de racismo e embranquecimento dos atores principais, é uma novela ambientada na Bahia e não tem sequer um personagem negro de destaque, do estado mais negro do Brasil, por onde chegaram os primeiros escravos. Para piorar, cai nas costas de Giovanna Antonelli o fator “white washing”, termo usado quando o cinema americano embranquece personagens de outras etnias em adaptação descaracterizando a historia original. É a segunda novela global em que Giovanna passa por isso, em Sol Nascente ela era descendente de japoneses, filha de Luís Mello, sendo que nenhum dos dois atores têm traços nipônicos, e sim europeus. Coincidência infeliz para a atriz, mas que sirva de aprendizado aos autores brasileiros de que uma história bem contada, deve agregar naturalidade e ambientação.

Ainda que a empresa alegue não ter atores de gabarito o suficiente para interpretar atores étnicos, é um bom momento para se fazer novos testes de elenco. A Globo está entendendo isso e se redimindo debaixo de duras críticas.

Fica a dica para as próximas produções e para todas as emissoras, que se abram sempre mais portas para novos atores e historias bem contadas!

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