A fotografia de O Último Imperador, o universo juvenil de Os Sonhadores marcou a carreira do diretor Bernardo Bertolucci, que faleceu aos 77 anos nesta segunda-feira (26), após uma década de luta contra o câncer. Em sua trajetória dirigiu filmes com diversos conteúdos políticos, incluindo “1900” (1976), que narra a história da Itália no começo do século XX, e O Conformista (1970), sobre a esquerda no período do fascismo italiano.

Mas foi o Último Tango em Paris, de 1972, protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider, que o transformou em astro internacional e alcançou o olimpo da arte, também foi aquele que, quarenta anos depois, manchou sua filmografia.

O escândalo cinematográfico

O Último Tango em Paris é o filme mais polemizado de Bertolucci e chegou a ser recusado pela produtora Paramount pelo excesso de erotismo. Sucesso de público, o longa também causou perplexidade e foi censurado na Itália entre 1976 e 1987, quando voltou aos cinemas com salas lotadas.

Em o Último Tango, pela primeira vez, o virtuoso cineasta quis capturar o ar de seu tempo, a liberação sexual, o puro impulso da libido, independentemente de lugares e códigos sociais.

Na história dois desconhecidos, um viúvo americano de passagem por paris e uma mulher se encontram por acaso em um imóvel que está sendo alugado. Ocorre uma espécie de atração carnal entre os dois. Eles decidem repetir os encontros, mas sem saber nada um sobre o outro, nem mesmo o nome.

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Cinema

Uma das visitas atinge seu ápice em uma cena de sexo não consensual, usando manteiga como lubrificante. Embora tenha sido simulada, o estupro garantiu a reputação do filme, mas marcaria para sempre a atriz Maria Schneider. Segundo ela, nem Brando nem Bertolucci haviam alertado sobre o uso da manteiga. “Marlon me disse: Maria, não se preocupe, é só um filme”. Mas durante a cena, mesmo que não fosse real, eu estava chorando lágrimas de verdade", lembrou.

"Eu estava com tanta raiva. Eu deveria ter ligado para o meu agente ou ter pedido que meu advogado fosse ao set porque você não pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas na época eu não sabia disso", contou em entrevista ao jornal britânico Daily Mail.

A polêmica voltou

Depois de 46 anos o enredo continua sendo debatido e já veio à tona em discussões, pelo menos, duas vezes. A primeira foi em 2007, quando Maria Schneider, que protagonizava com Marlon Brando uma das mais célebres cenas de sodomização do Cinema, quebrou o silêncio sobre o que aconteceu na rodagem, quando tinha apenas 19 anos.

A segunda aconteceu em dezembro de 2016, quando um vídeo feito por uma ONG espanhola, em 2013, mostra o cineasta contando que a ideia de usar manteiga como lubrificante foi planejada por ele e Marlon na véspera da filmagem. O cineasta nunca escondeu que queria "capturar a raiva e humilhação de uma mulher e não da atriz. E essa ferida foi útil para o filme. Eu não acho que ela teria reagido da mesma forma se tivesse sido informada ", completou.

Em agosto passado, três meses antes da morte do cineasta, a prima de Maria, Vanessa Schneider, jornalista do Le Monde lançou o livro "Tu t'appelais Maria Schneider", onde conta a história de uma mulher, tão à frente em suas lutas, mas que nunca foi ouvida e cuja carreira e vida foram destruídas pelo filme de Bertolucci.

A jovem protagonista está nua em quase todas as cenas do grande apartamento vazio. O homem está vestido. O matiz dominante da imagem assinada pelo diretor de fotografia Vittorio Storaro. Durante as filmagens perdeu 16 quilos, estava sujeita ao cineasta, dependente dos olhos e das aprovações, ao contrário de Brando que tinha o poder de impor limites. “Foi tudo muito doloroso para ela, em particular, a cena de sodomia simulada com manteiga. Parte da opinião pública a associava a um objeto sexual, as pessoas faziam piadas sobre isso”. Disse Vanessa ao canal de televisão France 3.

Após o filme a francesa não participou de mais nenhuma cena de nudez e sofreu com o vício em drogas e a depressão. Em 2007, quatro anos antes de morrer, ela confessou ter se sentido "humilhada e violentada" por Bertolucci e Brando.

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