O leitor que acompanha os lançamentos do setor automotivo deve ter lido alguma coisa sobre o renascimento do Mitsubishi Eclipse, que desembarcou no Brasil, em outubro, com o sobrenome Cross e, agora, como um utilitário-esportivo (SUV). São duas versões: HPE-S (com preço sugerido de R$ 150 mil) e HPE-S S-AWC (a partir de R$ 156 mil). Dos cupês do passado, restou só o prenome, mas a marca acredita que, de roupa nova, o modelo pode ter melhor sorte que seus antecessores, em termos comerciais.

A verdade é que, apesar de ter sido um verdadeiro sonho de consumo, durante os anos 90, quando sua primeira geração fez sucesso entre jogadores de futebol e pagodeiros, o Eclipse original se tornou um dos maiores micos de que se tem notícia. Portanto, antes de entregar seu suado dinheirinho para os japoneses, se deixando levar pelos elogios da imprensa pelega, que troca seus adjetivos por migalhas dos fabricantes, é bom você ter algumas coisas em mente:

A primeira delas é que o Eclipse Cross é, na verdade, a versão aventureira do malfadado Lancer – quem teve ou tem o desprazer de ser um infeliz proprietário do sedã, sabe bem do que estou falando.

A segunda, que sua plataforma é usada, desde 2006, pelo primo Outlander e seu motor turboalimentado (1.5 litro 16V), de 165 cv, deriva da unidade 4A91, que estreou em 2004, e seu consumo (ocultado pelo fabricante) chegou a ser 20% superior ao de concorrentes, testados em igualdade de condições. Uma mentira que os jornalistas tapeadores estão contando, para ajudar a Mitsubishi a convencê-lo de que comprar o SUV é um grande negócio, é que o Lançamento traz nove bolsas infláveis, quando, na verdade, são sete – duas frontais, duas laterais, duas de cortina e uma para os joelhos do motorista.

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Tecnologia

A exemplo das quatro gerações de esportivos que lhe antecederam, o Eclipse Cross aposta no visual arrojado para atrair o tolo, quer dizer, o cliente. Novinho, no salão de vendas da concessionária, ele é lindo. Suas linhas futuristas levam os mais ingênuos a crerem que, daqui a dez anos, ele ainda esbanjará estilo. O problema é que o futuro caminha, quase sempre, na direção oposta à que imaginamos e, em menos de meia década, os sinais de envelhecimento serão evidentes.

Basta olhar para os cupês que lhe emprestam o nome, aqueles pelos quais os craques mais bem pagos do país desembolsavam fortunas. Além de ultrapassados, eles revelam um mau gosto indiscutível.

Inverdades

Bom, para disputar uma fatia de mercado com Jeep Compass, Honda HR-V, Hyundai Creta e Nissan Kicks, que custam até 30% menos, o novo Eclipse Cross aposta na capacitação para uso fora de estrada –apesar de 95% dos SUVs jamais rodarem em piso sem pavimentação, ainda há quem ache isso o máximo.

Para tanto, a Mitsubishi destaca o S-AWC, um dos mais avançados sistemas de distribuição de torque e controle de tração de seu segmento. A marca garante que se trata do mesmíssimo conjunto usado pelo lendário Lancer Evolution EVO X, mas isso também não é verdade. O S-AWC do Eclipse Cross é uma evolução, isto sim, do usado pelo irmão maior Outlander e, obviamente, só está disponível para a versão mais cara e avançada que, na sua configuração mais completa, bate nos R$ 180 mil –nunca é demais lembra que o modelo de entrada conta com tração apenas dianteira.

Por fora, o Eclipse Cross é 1 cm menor, 5 cm mais baixo e 1 cm mais estreito que o Compass, levando vantagem na distância entre-eixos (4 cm a mais) e na capacidade volumétrica do porta-malas (63 litros a mais). Por dentro, o acabamento de segunda categoria é disfarçado pela arquitetura avançada e pela boa ergonomia. Seu pacote de conteúdo traz o indispensável para sua faixa de preços e, em termos de Tecnologia embarcada, quem tem um iPhone X está mais bem servido, seja pelos recursos que tem disponível à mão ou pela maior confiabilidade do smartphone em relação ao SUV –a Mitsubishi manteve sua tradição e ficou na 27ª colocação e entre as cinco últimas posições no ranking de qualidade inicial auditado pela J. D. Power and Associates.

Outra coisa que você não vai ler nas revistas, nos cadernos dos jornais e nos sites que vivem das verbas publicitárias –cada vez mais escassas– das montadoras, é que a Mitsubishi não anda em ascensão. Suas vendas globais subiram 7,7%, nos últimos cinco anos e, mesmo assim, a marca perdeu cinco colocações na tabela, caindo da 22ª para a 27ª posição só nos últimos cinco anos, e fatia no bolo, que já era de modestíssimo 1,2%, retrocedeu para 1,1%. No Brasil, sua participação, que chegou a ser de 1,7%%, em 2012, hoje não passa de míseros 0,9% - seu volume caiu de quase 61 mil para pouco mais de 20 mil unidades. Ou seja, comprando um de seus veículos, você estará ajudando a marca a se manter viva. Portanto, se seu objetivo é a filantropia, empenhar R$ 160 mil no Eclipse Cross lhe fará mais feliz. Mas se seu objetivo é ter, na garagem, um veículo confiável, com custo de manutenção justo e pronta assistência técnica, fuja do novo SUV!

Amor próprio

Outro detalhe, digamos assim, que os lambe-botas da imprensa especializada escondem de você é que os modelos da Mitsubishi são uma referência, quando o assunto é desvalorização. Só de tirar o Eclipse Cross de dentro da concessionária, 20% do seu preço de tabela desaparece. A partir daí, seu valor de mercado vai cair por volta de 7%, a cada ano. Bom, não precisa ser matemático para saber que, ao final de cinco anos de casamento com ele, o incauto terá perdido R$ 65 mil – equivale a jogar R$ 1.100 no vaso sanitário e dar descarga, todos os meses, durante estes cinco anos. O pior é que, percebendo que este matrimônio é sua ruína financeira, você tentará se divorciar do utilitário-esportivo, mas só aí verá que é mais fácil passar a ex-mulher ou o ex-marido para trás, do que um Mitsubishi para frente.

Sem dúvida, uma compra para quem não tem amor próprio...

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