Futebol é uma paixão nacional, e por isso muitos governantes podem tentar usá-lo para seus próprios interesses. Para evitar interferências políticas no esporte, a FIFA proíbe em seu estatuto que governos tomem decisões em assuntos internos das confederações de futebol de seus países.

O Brasil nas últimas semanas vem vendo política e futebol em rota de colisão com a decisão do Governo Bolsonaro de sediar a Copa América no país.

Em contrapartida, os jogadores da Seleção Brasileira manifestaram desconforto com a realização do torneio em meio ao agravamento da pandemia no país e chegaram a cogitar um boicote.

O técnico Tite solidarizou-se com a atitude de seus atletas e, em resposta, segundo o portal Terra, teve o cargo ameaçado pelo então presidente da CBF Rogério Caboclo, afastado no domingo (6), após denúncias de assédio moral e sexual.

A decisão foi uma tentativa de agradar o governo Bolsonaro e seus apoiadores, principais interessados na realização da competição.

Contudo, não seria a primeira vez na história do Brasil que política e futebol entram em rota de colisão.

Em 1970, o técnico João Saldanha foi dispensado do comando da seleção por seu envolvimento com a militância política de oposição à ditadura militar.

O técnico jornalista

João Saldanha, também conhecido como ‘’João Sem-Medo’’, ganhou fama anos antes como jornalista esportivo e árduo membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Logo veio a ser técnico do Botafogo, em 1959, quando conquistou o Campeonato Carioca daquele ano. Deixou o cargo em 61 e assumiu a seleção brasileira em 1969.

O convite da Confederação Brasileira de Desporto (CBD) ao técnico-jornalista foi para amenizar as críticas que a seleção vinha sofrendo da imprensa esportiva. No entanto, a relação entre os militares e o novo técnico se tornava cada vez mais conflitante conforme Saldanha aumentava suas críticas à ditadura enquanto jornalista.

O ponto de inflexão foi em janeiro de 1970, no sorteio de grupo da Copa Mundo que ocorreria naquele ano, em que Saldanha divulgou para autoridades internacionais um dossiê feito por ele em que citava 3.000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura brasileira.

'Ele escala o ministério, e eu a seleção', disse João Saldanha

O governo não podia admitir que um oposicionista tão combativo comandasse a maior paixão nacional e sobretudo voltasse do México campeão, então o presidente Emílio Garrastazu Médici passou a articular a derrubada do técnico subversivo da seleção, o que de fato aconteceu em março daquele ano, duas semanas após Saldanha declarar que "ele [Médici] escala o ministério, e eu a seleção", como resposta ao pedido do general para convocar o jogador Dario, o Dadá Maravilha.

Anos depois, em 1985, Saldanha falou sobre o caso no programa "Roda Viva". "Considero Médici o maior assassino da história do Brasil. Ele nunca tinha visto o Dario jogar. Aquilo foi uma imposição só para forçar a barra. Recusei um convite para jantar com ele em Porto Alegre. Pô, o cara matou meus amigos. Tenho um nome a zelar. Não poderia compactuar com um ser desses", disse.

João Saldanha faleceu em 1990, aos 73 anos, e nunca em sua carreira tanto de jornalista quanto técnico deixou de criticar os abusos da ditadura militar.