A série "Black Mirror" teve origem na televisão Britânica com o gênero em ficção científica, e começou a ser exibida em 2011, tendo sido propagada pela Netflix [VIDEO] em 2016, aumentando seu interesse internacional. A grande relevância em tratar de forma satírica sobre temas intrigantes na relação da sociedade moderna com a Tecnologia, principalmente nas consequências negativas, causou impacto entre os telespectadores, o que a tornou um grande sucesso.

Black Mirror tem a característica de ter seus episódios com temas independentes uns dos outros, ou seja, a cada episódio uma nova estória. O auge está em demonstrar em cada capítulo o comportamento das pessoas com o uso excessivo de tecnologias, estas semelhantes ou iguais às do tempo presente, ou até mesmo tecnologias de um futuro próximo, o que é assustador, pois revela ao público a realidade em que se vive atualmente, e o faz pensar qual o destino da humanidade.

O episódio “Nosedive” (Queda Livre)

O episódio 1 da 3ª temporada chamado “Nosedive” (Queda Livre), apresenta uma situação bastante comum nos dias de hoje. O capítulo evidencia o desespero de uma garota que almeja ser popular, ter melhor crédito, prestígio e status social, mas para isso precisa ter uma boa nota nas redes sociais. Revela também a consequência da busca descontrolada pelo reconhecimento, na qual o desejo por curtidas no mundo virtual demonstra que as pessoas tem se valorizado através da quantidade de estrelas que recebem em suas redes, o que afeta diretamente suas vidas e relacionamentos.

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Cinema Tecnologia

A protagonista do episódio citado acima é Lacie Pound, que a todo tempo é mostrada com um aparelho celular nas mãos, este que revela a nota pessoal de cada indivíduo existente nessa sociedade, ou seja, com cada pessoa que se encontra, conversa ou interage virtualmente, baseado em suas ações, uma nota é dada para a mesma, podendo ela retribuir ou não. Não obstante, as lentes oculares funcionam com um extensão do celular, em que é possível analisar a vida de alguém e, dependendo do que se ver, interagir melhor.

A nota de Lacie é 4.2, de um total de 5.0, ela vive constantemente em razão de aumentá-la. Treinamento de sorrisos falsos, postagens de comidas que mesmo não gostando lhe renderia boas curtidas, amizades forçadas entre outros. Sempre analisando seu perfil para acompanhar sua nota, ela percebe que recebeu uma nota baixa (4.0) de Naomi Blestow, uma usuária de nota 4.5, mesmo quando todos estavam lhe avaliando em 5.0.

Em seguida, Lacie descobre que precisa encontrar uma nova casa para morar com seu irmão, e vai até a Enseada do Pelicano, um condomînio da alta sociedade e frequentado por pessoas de nota alta. Mas ao receber o valor semanal, percebe que não tem condições de morar nesse local, afinal precisaria de 0.3 pontos a mais. Entretanto, a vendedora lhe oferece a opção de participar de um programa para Influenciadores Premium que, caso o cliente tenha uma nota 4.5, ganha 20% de desconto no valor do aluguel.

A protagonista visita o perfil da Naomi, e começa a idealizar sua vida caso fosse também uma usuária 4.5 ou mais. Então ela começa uma jornada para tentar aumentar sua nota, e contrata um especialista que lhe aconselha a frequentar lugares e conviver com pessoas com notas próximas a 5.0. Lacie começa a agir forçadamente com as pessoas na tentativa de obter delas boas avaliações, o que não dá certo. Ela visitou novamente o perfil de Naomi, e notou que a mesma postava vídeos com um urso de pelúcia, e fez o mesmo. Postou uma foto com o seu urso de estimação, Mr. Rags, para chamar a atenção de Naomi, e receber um curtida. Para sua alegria, Naomi curtiu sua foto, e com isso teve esperança de sua nota começar a aumentar.

Lacie recebe uma ligação de Naomi, quando é revelado na série que as duas já tiveram uma relação de amizade, mas estavam sem se falar por algum motivo, provavelmente a nota. Naomi a convida para ser madrinha do seu casamento, por consideração a amizade que já tiveram. Sem exitar, Lacie aceita, pois seria a oportunidade de mudar de vida, afinal estaria rodeada de pessoas com notas próximas a 5.0.

Chega o dia em que Lacie viajará para o casamento de Naomi, quando o seu irmão questiona o porquê de ela está agindo dessa maneira simplesmente para obter uma nota 4.5, quando na verdade Naomi nem é sua amiga. Mesmo assim, ela não desiste de ir, e é quando sua vida começa a mudar. Durante o trajeto ao aeroporto, Lacie se deparou com algumas pessoas que a deram nota baixa para ela. Ao chegar no aeroporto, percebeu que seu vôo foi cancelado, e ao se irritar com o atendente recebeu uma nota baixa dele e de todos que estavam na fila, irritada com o ocorrido o segurança a pune provisoriamente por 24h com 1.0 a menos e todas as notas negativas que recebesse seriam duplicadas. Ela tenta de todas as formas encontrar uma solução: aluguel de carro (o mais antigo, afinal sua nota não permitia um melhor), caronas (que não foi fácil devido a sua pontuação, fazendo com que quem passasse por ela a avaliasse mal mesmo sem ela ter feito nada) etc. Até que uma caminhoneira, Susan, lhe oferece ajuda. Lacie aceita não muito feliz, pois a mesma tinha pontuação 1,8. Mas se surpreende quando Susan lhe conta que já foi uma 4.6, mas que mudou depois que o marido morreu, pois entendeu que dar e receber notas não adiantava de nada (senão para que quem recebia), e que as pessoas não se importavam umas com as outras. Susan demonstra a Lacie que viver dessa maneira não torna as pessoas verdadeiras, pois precisam aparentar felicidade e alegria, sempre.

Susan não consegue levá-la ao seu destino final. Lacie recebe uma ligação da sua amiga, que lhe diz para não ir mais ao casamento porque a sua nota estava em 2.8, e isso não seria bom para a sua reputação. Lacie não desiste, e consegue mais uma carona, entretanto não muito boa, pois fingiu compartilhar opiniões iguais às das pessoas do carro, e acabou recebendo notas baixas ao final do trajeto.

Por fim, ao chegar ao casamento, Lacie estava toda suja e desarrumada. Ela, então, pega o microfone e começa um discurso sobre a amizade dela e de Naomi, quando percebe que será interrompida pelo marido da amiga, começa a falar negativamente sobre Naomi e quem ela é verdadeiramente. Lacie é retirada do casamento e levada a uma prisão, lá sua lente ocular (que é a extensão do celular) é retirada, e ela começa a pensar na sua vida. Quando percebe alguém lhe olhando, um rapaz em outra cela, e tenta avaliá-lo, mas vê que não pode mais fazer isso. Sendo assim, continua a insultar o rapaz e que lhe retribui, Um dia ao outro o que gosta e o que não gosta, e o episódio termina do mesmo jeito que começou, pessoas trocando opiniões sobre as outras, contudo não mais presos no mundo tecnológico e superficial, e sim presos no mundo real, porém livres.

Crítica

A estória de Lacie pode parecer exagerada e intrigante, mas demonstra o retrato do mundo atual. Pessoas buscam cada vez mais a exposição e o julgamento da suas vidas nas redes sociais. O anseio por elogios, afirmações positivas ao seu respeito as tornam reféns de um mundo inexistente, em que indivíduos buscam não viver o que se é, mas viver o que o outro diz como tem que ser.

É fácil identificar qual a cosmovisão filosófica e antropológica que se desenvolve explicitamente neste episódio, e aí está o problema: toda a sociedade retratada traz uma visão de mundo em que o ser humano é um ser socialmente objetificado em suas relações, e que o único propósito é obter status, privilégios e até dinheiro. Essa forma de ver o ser humano não está longe da nossa realidade. Os indivíduos estão em busca de fama virtual, e acabam reduzindo todas as dimensões (social, espiritual, psicológica e biológica) do ser humano em apenas uma, e tornando suas relações sociais superficiais e artificiais.

Visões reducionistas no campo da antropologia não são tão atuais, como já afirmou o sábio no Livro de Eclesiastes, capítulo 1, versículo 9 “(...) não há nada novo debaixo do sol.”. Observando o mundo atualmente, o ser humano estaria vivendo o efeito da modernidade, e que ao enxergá-lo formas reducionista se desenvolviam, por exemplo como Newton e o mecanicismo na física; Darwin e o evolucionismo na biologia e Spencer no organicismo; Augusto Comte e o positivismo nas ciências sociais. O racionalismo fez com que todos esses ismos fossem gerados, resultando em mecanizar, objetificar, materializar e naturalizar a existência e a vida humana.” (REICHOW, 2019). De maneira similar, vimos que toda forma de reducionismo para entender e ver o ser humano é prejudicial, e não se pode aceitar que o ser humano seja visto apenas como um indivíduo biológico, social, sexual, cultural, econômico, político ou religioso, por mais que pudesse entendê-lo através de cada vertente, seria reduzi-lo a um animal, ou coisa. Ou seja, na relação homem-tecnologia, principalmente nas redes sociais, é comum que a Opinião una seja a de enxergar o ser humano de maneira relacional (social), em que pessoas usam outras para alcançar o que almejam.

Estudo mostra os efeitos do Instagram

Um estudo realizado pelo Royal Society for Public Health, chamado Status of Mind (Estado das Mentes), apontou o aplicativo Instagram como a rede social mais prejudicial à saúde mental dos jovens, e o seu uso excessivo contribui para essa estatística. O Instagram estaria agravando quadros de ansiedade e depressão em pessoas dessa faixa etária, além de despertar uma má qualidade de sono e insatisfação com o próprio corpo (FERNANDES, R, 2018). A ansiedade e a depressão talvez possam estar relacionadas à visão reducionista vista nas vidas dos famosos virtuais, em que todos os seus seguidores almejam ter a mesma quantidade de curtidas, seguidores e o reconhecimento, mas muitos não conseguem e acabam se frustrando, podendo gerar um quadro de ansiedade e por consequência uma depressão. É possível perceber também que muitos jovens são insatisfeitos esteticamente com seus corpos. Isso se dá em consequência dos influenciadores digitais, que sempre estão em boa forma, com nenhuma imperfeição etc, e acaba gerando conflitos mentais em seus seguidores, afinal buscam desenfreadamente serem iguais a eles.

Essa maneira viciosa de acesso às redes sociais traz males biológicos para corpo, como comprovado em um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. O experimento foi realizado com um grupo de voluntários que inicialmente dormiam 8 horas por. Depois, os voluntários foram divididos em grupos. O primeiro continuou a dormir por 8 horas, o segundo por 6 horas e o terceiro por 4 horas. O estudo comprovou que quanto menor a quantidade de tempo dormido, maior o danos causados pela falta de sono, e que nenhum dos voluntários “se acostumou” com a falta de sono, mesmo após duas semanas de teste (LEONARDI, 2017). O tempo excessivo nas redes sociais pode não só afetar biologicamente o corpo, como também dificulta o relacionamento com as pessoas a redor.

Por fim, Nosedive faz entender que é necessário uma cosmovisão completa no campo da antropologia, para que se possa compreender que o ser humano não é apenas um ser social que pode ser usado socialmente para lhe fazer conseguir fama, dinheiro e privilégios. Os humanos são seres que precisam de relações pessoais que o ajude e ampare emocionalmente, que fortaleça a fé, entre outros. Para isso, é preciso reconhecer que o uso excessivo de tecnologias tornam seus usuários escravos, diminuindo suas relações sociais e também prejudicando a saúde. Assim como no final do episódio, é necessário ponderar o uso dessas tecnologias, e se libertar como Lancie, entendendo que existe um mundo fora das redes sociais, e assim cultivar nossas amizades e relacionamentos reais.

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