O romance 'Ensaio sobre a Cegueira' de José Saramago, é uma boa opção para refletir durante este período de quarentena. Tanto o livro quanto o filme são sugestões interessantes para a reflexão.

A história

A vida segue seu curso normal, quando de repente se lança pela cidade uma inexplicável doença chamada de cegueira branca. O primeiro a notar é vitimado no ainda no trânsito, enquanto espera o sinal abrir. À medida que a doença avança sobre outras pessoas, o caos vai aos poucos se instalando pelo país inteiro. Eis o começo impactante de "O Ensaio sobre a cegueira", filme do brasileiro Fernando Meirelles baseado no romance homônimo de José Saramago.

A narrativa que se desenrola a partir daí mesclam drama, ficção científica e distopia em cenas quase apocalípticas. Diante da ineficácia do Estado e da ignorância diante da doença, as pessoas começam a expor seus instintos mais primitivos de sobrevivência. Uma personagem, porém, ainda consegue enxergar. Na verdade, ela nunca perdera a visão. Nela estará a esperança da humanidade perdida.

Os contemporâneos cegos do castelo

É impossível no mundo contemporâneo pensar na literatura e no cinema como artes ingênuas. Artes feitas pela simples existência da arte. Aliás, nunca o foram. No caso de O Ensaio sobre a cegueira, a adaptação de uma premiada obra literária para as telas do cinema, leva o espectador a questionar valores humanos, éticos e morais que faltam nas personagens.

Nesse sentido, a cegueira branca poderia ser entendida como o advento anunciador de uma pós-modernidade? De uma visão apocalíptica do homem e da sociedade, reduzidos a estados animalescos e reificados? Ter-se-ia, desse modo, estereótipos claros do caráter de um povo, que, por sua vez, corresponderiam às práticas que envolvem as relações de poder entre as pessoas.

No caso da obra O Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, um romance que na verdade se quer ensaio, assim como sua adaptação para as telas do cinema, uma interpretação semântica conduziria o leitor a questionar valores humanos, éticos e morais que faltam nas personagens do romance que cegos “não tardarão a transformar-se em animais, pior ainda, em animais cegos”.

Por outro lado, a interpretação crítica pode proporcionar ao público a oportunidade de conhecer a estrutura mais profunda e escondida que faz com que as personagens reconheçam que “já éramos cegos no momento em que cegamos”

Logo, romance e filme analisam e deixam em evidência, certa crítica, a um fenômeno tido como ‘cegueira social’ que pode ser local, dentro de seu próprio contexto, ou universal, mostrando que as pessoas, dentro da sociedade, não enxergam os outros indivíduos, por estarem impregnadas pelos padrões comportamentais e morais desse sistema. Não restam dúvidas, por isso, que se trata também de um ataque à moral humana, ou melhor, à falta dela. Em vários momentos a crença de que o homem já é ruim por si só é, ironicamente, abordada.

Por outro lado, pode-se notar nas obras homônimas a ideia de que as influências externas podem moldar negativamente o caráter humano. O homem como um produto de uma construção sócio-histórica, não deixou de sofrer influências do modus operandi da sociedade assim como também o influencia. É dessa relação recíproca, que surge a humanidade ficcionalizada nas obras. Esta última seria mais um estágio do processo evolutivo que a humanidade tem passado desde seu começo, legitimada na narrativa, porque a ficção não é o avesso do real, mas sim, outra forma de captá-lo, com limites maiores e com múltiplas possibilidades de criação e fantasia e a ficção da atualidade dissolve a fronteira entre realismo e fantasia; para além de nacionalismos.

Pode-se ainda, identificar que uma das causas da mítica cegueira que acometerá toda a humanidade é fazer dos olhos “espelhos virados para dentro”, cujo sentido, “não tem origem na página impressa, mas no espírito do leitor”. A cegueira branca não seria um castigo, mas a oportunidade de revisão dos processos evolutivos do homem e de toda a organização social, já que “o mundo está cheio de cegos vivos” e “organizar-se já é, uma certa maneira, começar a ter olhos”.

Não há dúvidas que o filme seja também um ataque à moral humana, ou melhor, à falta dela. O homem, como um produto de uma construção sócio-histórica. Assim, o filme é um expressivo exemplo do cinema contemporâneo, já que apresenta características que permitem ao público espectador interpretar a obra e repensar o presente da humanidade e toda a sua organização, colocando-o diante de uma expectativa de futuro que dependerá do tratamento dispensado a esse presente.

Eis uma ótima sugestão para ver, ler, pensar e curtir durante estes dias de confinamento social.

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