A física enquanto ciência tem muitos temas instigantes e desconhecidos pela sociedade. Um deles é o “buraco negro”, sobre o qual não faltam mitos e dúvidas, reforçados por diversos filmes e séries que nada condizem com a realidade. Esta foi uma das questões abordadas no “Papos de Física”, evento de divulgação científica organizado por pesquisadores do Centro Internacional de Física Teórica e o Instituto Sul-Americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR), que ocorreu dia 8 desse mês, no Laundry Deluxe, em São Paulo.

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“Buraco negro é um só aspecto do conhecimento”, afirma o pesquisador e diretor do ICTP-SAIFR, Nathan Berkovits. O importante é ter em mente que os estudos sobre esse objeto podem ser úteis para esclarecer outras questões que são ainda incompreendidas pela Ciência.

“Tem duas teorias – mecânica quântica e relatividade geral – que já estão muito bem entendidas, mas quando se juntam, temos o que chamamos de gravitação quântica, algo que ainda não entendemos quase nada. E buracos negros é um exemplo de que realmente essas duas teorias têm que se juntar”, explica Berkovits.

Como e porquê aproximar ciência e sociedade

Se um objeto tem ainda tanto mistério, mesmo entre pesquisadores e cientistas da área, não é difícil imaginar que a sociedade tenha dúvidas do tamanho do universo. Na sétima edição do “Papos de Física”, que se propôs a enumerar “sete maneiras de morrer com buracos negros”, o público, formado não só por estudantes de ensino médio e graduação, como também por profissionais leigos no assunto, pôde fazer perguntas sobre as teorias da física, ao mesmo tempo em que aproveitava uma cerveja com petiscos.

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Acredita-se que com um ambiente descontraído e fora da universidade, todos se sintam menos inibidos em participar e acabem por se interessar mais. Esse seria o princípio da popularização do conhecimento. Segundo a coordenadora de atividades do ICTP-SAIRF, Jandira Ferreira, o objetivo é “aproximar as pessoas da ciência”, evitando o “analfabetismo científico”, bem como o pensamento de que a ciência no Brasil seria “inútil”.

Sobre esta questão, Nathan Berkovits destaca a importância de uma divulgação – tanto pela mídia, como por eventos como o “Papos de Física” – daquilo que vem sendo pesquisado nas universidades. O principal é criar uma cultura de interesse, que possa ter retorno na forma de financiamento.

“Financiar a ciência é importante por vários motivos. Um deles é porque vai criar aplicativos, vai criar um telefone celular, por exemplo”. Porém, há um problema nessa visão mercadológica, voltada para uma valorização apenas de pesquisas que possam gerar produtos: esse pensamento não permite o desenvolvimento de áreas que precisem de mais tempo para atingir resultados.

No caso do financiamento público, Berkovits critica a falta de interesse do governo em financiar pesquisas que não tenham por objetivo resultar em produtos e ressalta que “os pesquisadores sabem que é preciso ter um prazo às vezes de vinte ou trinta anos para realmente produzir. E o importante é que as pessoas entendam que a ciência que apresentamos aqui não é porque amanhã queremos criar um aplicativo, mas porque é conhecimento. E conhecimento gera, obviamente, ferramentas que são úteis. Mas o principal objetivo é criar o conhecimento”. Afinal, “ciência não é só para vender alguma coisa”, explica.

Berkovits enfatiza que, no Brasil, “música e arte você consegue financiar via esses meios como Lei Rouanet. Ciência não. Uma coisa que pode acontecer é que as pessoas passem a se interessar e queiram contribuir”. Por isso a importância de levar discussões como a de buracos negros para o público externo às universidades. Afinal, a ciência fechada na academia não vai ajudar cientistas a gerarem mais conhecimento.