Se a competição do 70º Festival de Berlim estava ocorrendo até o momento sem polêmicas, o cineasta russo Ilya Khrzhanovskiy mudou esta situação com a exibição do filme "DAU. Natasha" –Khrzhanovskiy divide os créditos da direção do longa-metragem com a cineasta Jekaterina Oertel. O filme gerou debates acalorados sobre suas cenas fortes e gerou controvérsia no renomado festival de Cinema.

Projeto DAU

O Projeto DAU teve seu início em 2007, quando houve uma instalação em Paris em 2019 sobre o tema. O filme dirigido por Khrzhanovskiy e Oertel junto com o longa-metragem "DAU. Degeneration" são os primeiros frutos cinematográficos deste movimento.

'DAU. Natasha'

A concepção do filme é recriar uma sociedade sob o domínio do totalitarismo da União Soviética entre 1938 e 1968. A produção acabou se transformando em uma empreitada multidisciplinar, que envolveu ciência, cinema, experimento social e performance.

Foi construído para a produção um cenário gigantesco, com 12 mil metros quadrados, no Instituto de Pesquisa em Física e Tecnologia, localizado em Kharkiv, na Ucrânia. Cientistas de verdade estiveram presentes no set, realizando experiências reais, também estiveram presentes no instituto artistas como Carsten Höller e Marina Abramovic.

O ambicioso projeto durou 40 meses, foram gastos 180 dias de filmagens, o elenco contou com 400 papéis principais e 10 mil figurantes participaram da produção.

Os figurantes foram recrutados na cidade e receberam o convite para trabalhar e viver no local, fazendo uso de roupas, até mesmo a lingerie, foi simulando o que existia na época. Além dos objetos, linguagem e comida que faziam parte daquele período. As atuações dos figurantes foram todas improvisadas.

Duas realidades

O diretor russo falou um pouco sobre o projeto na coletiva de imprensa: "É um mundo intermediário entre duas realidades”, Ilya Khrzhanovskiy afirmou ainda que foi criado para o projeto um período diferente. Ele ainda ressaltou que a violência vista no filme foi real, mas não igual ao que acontece no mundo real.

O filme foca sua atenção no refeitório onde trabalham a personagem-título (Natasha Berezhnaya) e Olga (Olga Shkabarnya). Ambas atendem aos cientistas que trabalham no instituto. Os dias de trabalho são seguidos por noites em que elas abusam de bebidas alcoólicas, como champanhe e comem caviar.

As cenas são bem extensas e quase sempre repetitivas, em que mostram os efeitos diários de viver em uma sociedade totalitária, em que a bebida serve como um alívio para não pensar na opressão. A violência exercida pelo Estado acaba se transferindo para o convívio. São comuns as cenas em que Natasha e Olga, bêbadas, discutem, xingam-se mutuamente e até mesmo brigam. Existe também uma cena de relação sexual real e uma de tortura.

Indagada sobre as cenas de relações sexuais e nudez, a atriz Natasha Berezhnaya declarou que todos acreditaram no que foi visto no filme, e não poupou elogios ao diretor, o diretor de fotografia e também elogiou o elenco.

O filme já gerava controvérsia muito antes de sua chegada ao Festival de Berlim. Com a acusação sofrida pelos produtores de assédio moral, a acusação foi rebatida por Khrzhanovskiy que afirmou que a culpa é do sistema, pois, segundo ele, nunca são revelados os nomes dos acusadores, o que ele disse se tratar de uma “velha prática soviética”. O diretor ainda afirmou que o filme foi feito para falar sobre o totalitarismo que ainda está presente na sociedade russa, comandada por Vladmir Putin desde 1999.

Propaganda pornográfica

Assim foi classificada pelo Ministério da Cultura da Rússia, neste país a produção está proibida. O diretor conta que fez uma reclamação e recebeu como resposta que eles não iriam ouvir seus argumentos e foi orientado a levar o caso à corte. O cineasta disse que seguiu a recomendação e que agora o caso está nas mãos da "corte mais justa do mundo", ironizou Ilya Khrzhanovskiy.

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