Apreensão, medo e alguma ponta de expectativa: as quatro crianças sobreviventes de um acidente aéreo finalmente foram resgatadas, enchendo de esperança e alívio milhões de corações no Mundo.

O 9 de junho foi o êxito final de uma história recheada por mobilizações, busca e vestígios de vida para um grupo ainda inocente e frágil dentro de uma floresta com árvores de até 40 metros de altura e nenhuma comunicação rodoviária. Sem contar o risco de animais como onças e cobras e uma rede fluvial de pouco alcance em relação à área onde ocorreu a morte de três adultos motivada por uma queda de avião.

Depois de 40 dias, os irmãos Lesly, de 13 anos, Soleiny, de 9, Tien, de 4, e o caçula Cristin, que completou um ano na mata fechada, estavam vivos e transformaram o fim de semana de muita gente numa alegria não só para a Colômbia como em outros países.

Operação esperança

As crianças foram encontradas num local situado entre as províncias de Caquetá e Guaviare, centro-sul da Colômbia. Ao todo, mobilizaram-se 200 militares, além de tribos indígenas que vivem na região.

De acordo com as forças militares, os quatro irmãos estão bem, mas com sinais de desidratação, magras e com várias picadas de mosquitos. Logo após o resgate, todos eles foram transportados de helicóptero para os primeiros cuidados médicos em um hospital.

Tão logo o desaparecimento do avião aconteceu, tropas do Exército desbravaram a mata e, alguns dias depois, localizaram os restos da aeronave. Nela, estavam os corpos dos pais e do piloto que não resistiram ao impacto com o solo. Antes da fatalidade, o piloto relatou, durante o voo, problemas relacionados com o avião.

Sem outra opção, os pequeninos abandonaram o local do acidente e começaram a percorrer as trilhas delineadas pela natureza.

Com 40 dias de um intervalo angustiante para quem acompanhava o drama, cogita-se que dois fatores foram essenciais para a sobrevivência da família: o primeiro seria o saber indígena passado de geração em geração –neste caso, a avó dos garotos. O segundo, o auxílio de kits de alimentação lançados na floresta pelas aeronaves do resgate.

Durante a busca por terra, havia a expectativa de encontrá-los com vida, pois algumas pistas levavam a crer nessa teoria: algumas pegadas e frutos mordidos eram bons indícios de conseguirem trazê-los bem.

Posteriormente, encontraram-se pertences pessoais (fralda e mamadeira) e um abrigo improvisado com folhas e gravetos. Foram 1.250 quilômetros andados por militares e índios dentro de uma floresta fechada e hostil.

“Colocamos todos os recursos possíveis para encontrá-los”, afirmou o capitão Carlos Vargas, componente da Área de Comunicações do Exército colombiano.

Bem difícil

A preocupação não rondava apenas as crianças. Do lado dos socorristas, houve problemas de saúde com 14 indígenas, forçando-os a sair da operação.

Enquanto os seres humanos não suportavam as condições, animais entraram em cena. Talvez a pista mais importante para o grupo de buscas foi a identificação de pequenas pegadas ao lado de uma marca deixada por um cão. Segundo o Exército, esse sinal pertence a Wilson, um pastor belga.

Apesar do salvamento dos meninos, não se sabe do paradeiro de Wilson; ele continua desaparecido na mata.

Com a finalidade de tranquilizar todos, os soldados participantes da operação fizeram fotos das crianças acompanhadas de índios e militares. Elas aparecem com cobertores e sentadas numa clareira.

O motivo principal de a família ter tomado o avião deve-se a ameaças de grupos ilegais e armados que atuam na área amazônica da Colômbia.

Declarações

O presidente colombiano, Gustavo Petro, retornou de uma viagem a Cuba. Lá, assinou um acordo de cessar-fogo momentâneo com o grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN). Ao saber da boa notícia acerca das crianças desaparecidas escreveu que “elas estavam sozinhas. Elas deram um exemplo de sobrevivência que entrará para a história, por isso essas crianças são as crianças da paz”.

Petro ainda classificou o episódio como “um presente para a vida” e espera um parecer definitivo dos médicos sobre uma possível transferência para um hospital da capital Bogotá. Lá, pretende ter um encontro com esses quatro heróis mirins.