A plataforma de streaming Netflix tem investido em produtos cinematográficos de diversas nacionalidades para adicionar conteúdo diferente no portifólio e assim entreter seus usuários. Nesse cenário, o Cinema espanhol tem se destacado bastante com séries que caíram no gosto do público, como "Vis a Vis" e a aclamada “La Casa de Papel”. Recentemente, o filme "O Poço", com direção de Galder Gaztelu-Urrutia e roteiro de David Desola e Pedro Rivero está ganhando destaque entre as novidades da plataforma.

A realidade de 'O Poço'

O filme se passa numa prisão vertical com vários níveis de ocupação (geralmente com 2 prisioneiros por nível) e tem um caráter totalmente distópico, em que os prisioneiros não têm aparentemente direito a um banho de sol ou a qualquer outra coisa que não seja a necessidade mais básica para manutenção da vida humana: comer.

A comida desce todos os dias para os prisioneiros em uma plataforma que gravita sobre O poço perpassando todos os níveis desde o mais alto (o nível ‘0’, onde se prepara a comida), até o nível mais baixo da prisão. Mensalmente os prisioneiros trocam de nível, ou seja, num mês pode-se estar no nível 6, o que significa acesso a bastante alimento, mas absolutamente nada impede que no mês seguinte se esteja no nível 202, por exemplo.

Da forma que se dá a entrada do protagonista Goreng na prisão, pode-se inferir que cada prisioneiro informa na entrada qual o seu prato favorito, e o pessoal da cozinha (no ‘nível 0’) prepara o prato de cada um. Considerando esse raciocínio, é bem lógico afirmar que a comida que desce o poço na plataforma, portanto, atenderia a todos os prisioneiros em todos os níveis.

Porém, os encarcerados dos níveis mais altos consomem mais do que o necessário e, consequentemente, os prisioneiros dos níveis mais baixos ficam apenas com os restos deixados pelos níveis superiores, chegando a não sobrar comida para alguns.

O poço da crítica social

Logo nos primeiros minutos, "O poço" apresenta uma frase muito forte para reflexão, por meio do primeiro interlocutor e companheiro de cela de Goreng, Trimagasi: “existem 3 classes de pessoas: as de cima, as de baixo, e as que caem”.

Analisando de maneira mais profunda e, inclusive, relembrando a dinâmica das trocas na prisão, a implicação que podemos tirar dessa frase do início do filme é que as pessoas podem estar numa situação melhor ou pior devido a circunstâncias totalmente aleatórias, tornando-se de forma completamente alheia a elas mesmas as pessoas “de cima” ou “de baixo”.

Contudo, se elas não aguentarem tempo suficiente para passar por qualquer tipo de circunstância na vida, estão fadadas a desistirem, tornando-se “as que caem”.

A trama se provou uma dura crítica ao modelo de sociedade dos tempos modernos porque, concordando com o significado das ações dos prisioneiros, as camadas mais altas da sociedade de hoje têm muito mais do que aquilo que realmente necessitam para sua subsistência, enquanto outros setores infelizmente acabam ficando sem nada ou com muito pouco, razão pela qual podemos inferir que a violência e a miséria devem se perpetuar enquanto estivermos vivendo e nos comportando desta mesma forma, assim como acontece no longa à medida que o protagonista Goreng desce o poço em cima da plataforma, até os níveis mais baixos.

Uma nova ótica sobre o poço

Apesar da validade absoluta da crítica de "O Poço", alguns detalhes merecem atenção como, por exemplo, não existirem as "pessoas que sobem”. O filme não apresenta um meio de os prisioneiros por vontade própria acharem uma forma de subir a níveis superiores da sociedade em que estão inseridos e, o único que pensa nessa possibilidade, o último companheiro de nível de Goreng, é ridicularizado. Todos, independente do nível em que estão no momento, pensam somente em sobreviver, ou seja, estão completamente alienados da possibilidade de que poderiam prosperar se trabalhassem juntos ou se buscassem pensar numa maneira de “subir” na prisão.

O ‘nível 0’ é, também, algo que merece destaque porque, nesse nível estão as pessoas que estão preparando a comida.

Em todos os momentos em que aparecem, todos estão diligentemente procurando fazer a obrigação da melhor forma possível, tentando servir à sociedade na qual estão inseridos. Isso também merece ser destacado porque, afora a visão niilista do filme, o mundo de hoje é composto de muitos milhões de pessoas que estão preocupadas em receber “o que desce na plataforma”, em vez de procurarem “o seu próprio nível 0”. Todos estamos sempre preocupados em sobreviver, sem saber que, quando acharmos algo que podemos de fato dar à sociedade, poderemos prosperar. A grande reflexão positiva que se pode tirar do filme é: estamos ou não alienados da possibilidade de que podemos ser “os que sobem”, ou os que chegam “no nível 0”?

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