Hoje em dia, devido à crise política que assola o país, muitas críticas têm sido proferidas contra intelectuais ligados a perspectiva da esquerda. Com Paulo Freire e seu legado, não tem sido diferente. Atacam sua história de vida, seus posicionamentos políticos e suas reflexões sobre o papel da educação. Entretanto, fora do campo meramente opinativo, a história deste educador e seu projeto de ensino-aprendizagem tem muito a ser compreendido.

Como sua história de vida e suas reflexões teóricas não estão separadas, vale ressaltar que Paulo Freire foi um educador brasileiro que na década de 1960 desenvolveu um método de alfabetização.

Destaca-se que, devido ao trabalho que desempenhou como professor de português e como Diretor no Departamento de Educação e Cultura do SESI, este intelectual encontrou na realidade sócio-histórica tão adversa das periferias de Pernambuco, o princípio gerador de sua pedagogia.

Nesse sentido, durante anos, atuou na educação de jovens e adultos sempre visando desenvolver no educando a capacidade de não apenas “ler a palavra escrita”, mas também, de “ler a realidade” de forma crítica e libertadora.

Portanto, não era objetivo deste educador, o ato de impor um discurso que os educandos deveriam se apropriar para torna-lo um dogma, mas sim, caberia a este profissional, através do diálogo, mediar os estudantes no processo de autonomia intelectual e, consequentemente, de transformação do mundo.

Educação: desenvolvimento da liberdade e da autonomia intelectual

A atuação de Paulo Freire, contudo, tomava a educação como uma ferramenta para o desenvolvimento da liberdade e da autonomia intelectual.

Desta forma, na contramão dos discursos hoje em dia divulgados por seus detratores, Paulo Freire não concebia a educação como um mecanismo de doutrinação construído de cima para baixo, partindo de métodos arbitrários e impositivos.

A principal crítica desenvolvia por este autor, inclusive, atacava veementemente o modelo de ensino pautado na figura de um professor que supostamente deteria “todo o saber” e restringiria a participação do educando apenas ao ato de “absorver os conteúdos”.

Em sua obraPedagogia do Oprimido, tal modelo de ensino é denominado de “educação bancária” devido ao ato de apenas depositar conteúdos, sem permitir indagações e questionamentos.

Por isso, a educação bancária é altamente criticada por reproduzir, no contexto da sala de aula, as estruturas opressoras de nossa sociedade.

Paulo Freire contra a "Educação bancária"

A "educação bancária" minimiza a participação dos estudantes, e, de forma profunda, inibe qualquer liberdade criativa no processo de ensino.

Desse jeito, para Paulo Freire, uma das características desta educação, é que ela está em grande parte voltada para a narração de palavras muitas vezes desconectadas da realidade dos educandos, ao invés de focar no educando e em seu processo de aprendizado.

A "educação bancária", para Freire, enxerga o saber como uma doação concedida por aqueles que se veem como mais sábios, frente aos educandos, tidos como aqueles que nada sabem.

Esta característica da "educação bancária" a inscreve como uma ferramenta de "naturalização" da ideologia das classes dominantes. E atua tanto na desarticulação do sentimento de classe, quanto no controle de uma possível revolta dos oprimidos.

Este modelo bancário de ensino, como era de se esperar, não é destituído de um partidarismo. Numa sociedade como a nossa, na qual a desigualdade social é flagrante, o ensino se comporta como uma forte ferramenta de manutenção deste sistema de coisas. Assim, embora se crie uma imagem de neutralidade na qual a relação de ensino e aprendizagem se apresenta sem posicionamento crítico, as contradições sociais são naturalizadas e os oprimidos são ensinados a não transformarem a sociedade a partir de seus atos.

Numa crítica pertinente a este modelo de ensino, Freire destaca que, os educandos, ao serem ensinados apenas a arquivarem conhecimento, acabam não sendo instigados a desenvolverem uma consciência crítica sobre as condições concretas do mundo. Esta consciência crítica, ainda segundo o autor, é o "divisor de águas" capaz de permitir com que os educandos se reconheçam enquanto transformadores da realidade social na qual estão inseridos.

Para combater este tipo de ensino, é proposta a educação problematizadora, que também pode ser chamada de libertadora, pauloreireana, dialógica ou conscientizadora. Em suma, os papeis desempenhados pelos sujeitos da educação são ampliados e passam a exercer uma relação de reciprocidade.

Nesta direção, os saberes dos educandos passam a ser considerados, e, a partir dos desafios impostos pela realidade dos estudantes, os educadores passam a elaborar aulas que visam a autonomia intelectual no lugar do simples acúmulo de informações.

Ao proceder mediante esta outra concepção, o educar constrói uma relação dialógica de ensino, e, assim, passa a reconhecer que não existe conhecimento superior ou inferior, mas sim, conhecimentos diferentes. Saber disso permite ao educador reconhecer principalmente que educando e educador estão numa relação recíproca de aprendizagem, e que, assim sendo, um aprende com o outro.

"Pedagogia do oprimido"

Paulo Freire considera que o ensino se dá através de um processo constante de criação e recriação, empreendido pelo educador, porém, sem desconsiderar os educandos, seus saberes e a realidade tanto da escola quanto a dos estudantes.

Contudo, a falácia atribuía a Paulo Freire, no caso, a de que ele supostamente desenvolveu um método de ensino para doutrinar os educandos, não se sustenta. Em sua empreitada teórica e empírica, Freire estava mais preocupado em instituir um método educativo que instigasse a criatividade dos estudantes, que promovesse nestes a autonomia intelectual e os ensinasse a desbravarem os caminhos e desafios da aprendizagem, a partir de suas próprias experiências, e, principalmente, no diálogo com o professor. “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Paulo Freire - Pedagogia do Oprimido).

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