Gisberta Salce Junior era uma imigrante brasileira em Portugal, de 45 anos, que morava no Porto. Mulher transexual, sem-teto, vivendo ilegalmente na Europa, saiu do Brasil para a França aos 18 anos para fugir de uma onda de assassinatos em São Paulo que vitimava travestis.

AVISO: Contém relatos de violência intensa.

Quando se mudou para Portugal, onde conseguiu um visto de residência, Gisberta já havia iniciado seu tratamento hormonal e implantado silicone nos seios. Para se manter, apresentava-se em bares e boates como transformista e se prostituía. Contraiu o vírus HIV e, com o tempo e a saúde debilitada, não conseguiu mais trabalhar.

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Visivelmente deteriorada, sem a beleza da juventude, depois de passar por vários hospitais e fugir de uma comunidade terapêutica, acabou construindo uma barraca dentro de um edifício abandonado no Porto. Em dezembro de 2005, um grupo de garotos adentrou o prédio em obras para pichar suas paredes e um deles, Fernando, a reconheceu. O adolescente era filho de uma prostituta que o deixava aos cuidados de uma babá, amiga de Gisberta, que passou a se relacionar também com a mãe do menino, à época com 6 anos.

Os 3 garotos se aproximaram da brasileira e passaram a visitá-la com frequência. Ela então se abriu e confidenciou a eles sobre sua doença, o uso de drogas e as dificuldades que vinha enfrentando. Procurando ajudá-la, levavam comida e chegaram a cozinhar para ela no local.

Um dia, eles acabaram contando sobre Gisberta para os colegas da Escola Augusto César Pires de Lima e da Oficina de São José, de administração católica, tratando-a como uma curiosidade.

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Segundo consta no processo, disseram aos demais que conheciam um "homem" com "mamas" e que "parecia mesmo uma mulher". Foi assim que 14 garotos se juntaram, ávidos por conhecer a transexual, e o prédio abandonado se tornou ponto de encontro - e alguns dos adolescentes passaram a agredir Gisberta.

A partir do dia 15 de fevereiro de 2006, passaram a se revesar em grupos para cometer múltiplos atos de violência contra a mulher que foi espancada, violentada e humilhada ao longo de três dias, com pedradas, pauladas - os pedaços de madeira também foram usados para estuprá-la - e queimaduras de cigarro.

Entre os dias 21 e 22 do mesmo mês, os jovens voltaram ao local e encontraram a brasileira desacordada. Acreditando que estava morta, pensaram em formas de sumir com o corpo e a jogaram no fosso do edifício, cheio de água. Ela estava inconsciente, mas viva, e morreu afogada.

Um dos estudantes confessou o crime a uma professora e o corpo foi descoberto no mesmo dia. O caso rapidamente ganhou os noticiários, que tratavam Gisberta no masculino e de forma extremamente derrogatória.

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Apenas com a mobilização de associações #LGBT a vítima ganhou um rosto e passou a ser tratada de forma mais humanizada - por vezes, ainda no masculino.

As investigações, acompanhadas de perto pelos grupos ativistas e pelos jornais, constaram que Gisberta estava viva quando foi jogada no fosso e a perícia considerou que sua morte por afogamento foi acidental. A acusação dos jovens foi alterada de homicídio doloso para ofensas corporais qualificadas. O juiz chegou a dizer que o evento foi "uma brincadeira de mau gosto de crianças que fugiu ao controle".

Entre os agressores, apenas um era maior de 16 anos e poderia ser punido criminalmente, Vitor Santos, que, segundo os colegas, não agrediu a vítima, apenas observando os demais. Foi condenado a 8 meses de prisão pelo crime de omissão de auxílio. Os demais foram condenados a internação por 13 meses no Centro Educativo; em setembro de 2007 todos já estavam em liberdade.

A frustração com o resultado do julgamento levou a uma intensa mobilização por parte de ativistas que, adotando Gisberta como símbolo da transfobia, conquistaram leis protetivas para transexuais no país. Desde 2011, é possível retificar os documentos apenas com um parecer médico, sem a necessidade de cirurgias.

Em 2008, a TVI de Portugal exibiu um documentário sobre o caso:

#Transfobia #Direitos Humanos