Neste mês de Copa na Rússia, olhares de espectadores do mundo inteiro estão voltados para o futebol e, por consequência, a cultura do país-sede.

Símbolos como o alfabeto cirílico, com suas letras facilmente associáveis aos cartazes de propaganda comunista; matrioskas (aquelas bonequinhas de madeira, colocadas umas dentro das outras) e a Praça Vermelha, onde está a colorida catedral de São Basílio, que mais parece feita de açúcar, têm feito parte da rotina de qualquer pessoa que não vive em uma bolha.

Historicamente, a Rússia teve uma importância simbólica também na economia brasileira. Talvez os mais jovens não saibam, mas, para os que hoje estão com mais de 30 anos, é só falar em “carro russo” que um nome vem logo à mente: Lada.

Antes…

A logo da Lada é uma letra “L”, estilizada para formar uma embarcação viking. A marca pertence à AvtoVAZ, que surgiu em 1966 de uma aliança entre as montadoras Nissan, Mitsubishi e Renault com a corporação estatal Rostec.

A Rostec foi criada na antiga União Soviética para promover o desenvolvimento tecnológico, a fabricação e a exportação de bens manufaturados militares e civis.

Em outubro de 1990, o primeiro presidente eleito em 30 anos no Brasil, Fernando Collor, deu fim ao protecionismo econômico imposto pelo período militar.

Na época, basicamente, eram comercializados no Brasil automóveis de apenas quatro grandes montadoras: Fiat, Ford, Volkswagen e Chevrolet. Cada uma tinha uma família principal de hatch/sedã/perua/picape, e pouquíssimos modelos além desses.

Collor chegou a chamar os carros nacionais de “carroças” e, por estimular a competitividade e, consequentemente, a melhoria na qualidade dos produtos, a reabertura do mercado nacional para as importações foi considerada uma das raras medidas positivas de sua gestão.

… durante…

A Lada largou na frente e, já no mês seguinte ao decreto do presidente Collor, haviam três modelos da montadora comercializados em terras tupiniquins. Com linhas quadradas e para-barros de borracha (como os de caminhão), os carros eram um tanto quanto antiquados, mesmo para o Brasil da época. Ainda assim, foram sucesso de vendas — pelo menos, a princípio.

O Laika, que originalmente se chamava VAZ 2105, foi criado com base em um Fiat 124 dos anos 60, adaptado para a realidade soviética.

Ele tinha uma motorização 1.6, tração traseira, e vinha nas versões sedã e perua.

O hatch Samara foi criado em 1984, chamando-se VAZ 2108 Sputnik no país de origem, vinha com motores 1.1, 1.3 e 1.5, e a tração era dianteira.

O jipe Niva, originalmente VAZ 2121, era um modelo de 1977, criado para o uso nas áreas rurais da União Soviética. Ele foi um dos primeiros 4x4 do mundo a ter estrutura de monobloco, no lugar de chassi.

Em seu primeiro ano no Brasil, foram vendidas mais de 15 mil unidades. Um fato que justifica o êxito inicial é o preço, com um Laika chegando a custar menos do que um popular nacional.

Outro é o “estilo” — afinal, dirigir um dos primeiros importados do Brasil e, ainda por cima, vindo de terras comunistas, era algo, no mínimo, curioso.

… depois

No ano seguinte à chegada da Lada ao Brasil, o aspecto de novidade havia passado, e as vendas despencaram vertiginosos 70%.

Em dezembro de 1991, a União Soviética se desfez; Collor sofreu impeachment um ano depois; a AvtoVAZ foi privatizada e, apesar de ter marcado a história do mercado automobilístico brasileiro, a iniciativa da Lada revelou-se um fracasso.

Entre os principais obstáculos enfrentados estavam a dificuldade para se encontrar peças e a falta de conhecimento dos mecânicos brasileiros para lidarem com os veículos estrangeiros.

Em 1995, com o aumento das taxas de importação, a montadora, agora Russa, se retirou do Brasil.

Na Rússia, no entanto, a marca segue como líder de vendas, hoje com modelos de cara bem mais amigável, como o Vesta. O Laika manteve o aspecto quadradão até deixar de ser comercializado, em 2015, no Egito. O Samara deu uma leve modernizada, mas ainda parecia 20 anos atrasado quando deixou de ser fabricado mundialmente, em 2013.

Já o Niva sobrevive até hoje, com praticamente o mesmo visual que os brasileiros conhecem. Há ainda rumores de que o utilitário pode voltar a circular por aqui em breve. Que circulem, então, pelas ruas de um país hexacampeão!

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