Integrante do grupo “Todos pela Saúde”, recentemente criado com a finalidade de conduzir a destinação de R$ 1 bilhão doados pelo Itaú-Unibanco para ações de combate e prevenção ao coronavírus, Drauzio Varella participa diariamente de reuniões matinais (sem sair de casa) em conjunto com outros técnicos, fornecendo informações médicas a respeito da doença.

Aos 76 anos e, portanto, dentro do grupo de risco pela idade avançada, o médico paulistano concedeu entrevista por vídeo-conferência ao canal de notícias BBC News Brasil e revelou estar bastante preocupado com uma possível “tragédia nacional” devido à enorme desigualdade social no Brasil, que acarreta em condições de vida extremamente diferentes entre os mais ricos e os menos favorecidos.

"Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural", disse.

Mazelas sociais no Brasil prejudicam combate ao coronavírus

Para o doutor Drauzio Varella, as dimensões continentais e as históricas mazelas sociais irão exigir orientação e estratégias distintas das que foram utilizadas na Europa e na Ásia. Ele cita que, no Brasil, grande parcela da população não tem condição de comprar álcool em gel e de se manter em isolamento social, além de lembrar que 35 milhões de pessoas sequer tem acesso à rede de água potável, o que impede higienização e lavar as mãos, algo básico na prevenção ao coronavírus.

Segundo Varella, os países europeus estão passando por sérias dificuldades por causa da pandemia da doença, porém a “estrutura social” é mais organizada e, sendo assim, torna-se mais "mais fácil" agir contra a disseminação.

Brasil pode ter 'grande número de mortos', alerta o médico sobre coronavírus

O médico alerta também à BBC News Brasil que em 2018, antes da pandemia da Covid-19, havia 13,5 milhões de brasileiros em situação abaixo da linha de pobreza, vivendo com até R$ 145 mensais e que, por conta de aceitar tal condição como uma uma mazela historicamente “natural” por décadas, o país pode vir a ter “um grande número de mortes” e um “impacto enorme na economia, por um tempo prolongado”.

Drauzio explicou na entrevista que não se elimina o coronavírus enquanto houver disseminação em "lugares impróprios para a vida humana" e que essa é uma ameaça constante. Declarou ainda que "todos vão perder amigos e familiares" e ponderou que "não será mais possível viver como antes".

Doutor Drauzio Varella defende o distanciamento social como única alternativa eficaz para evitar a propagação ainda maior do coronavírus e faz um apelo para que as pessoas permaneçam dentro de suas casas o máximo de tempo possível, além de prever “consequências terríveis” para pacientes em estágio grave de infecção e que, devido à infraestrutura ausente ou precária, podem ficar sem atendimento médico com problemas respiratórios.

“Ter falta de ar é uma morte horrível”, enfatiza o médico.