A hidroxicloroquina, remédio da moda no combate ao coronavírus, voltou a ser polêmica nesta segunda-feira (20). Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, um estudo da Prevent Senior sobre o uso do medicamento (hidroxicloroquina) em pacientes com suspeita de Covid-19 foi suspenso pelo Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).

Segundo o Conep, a empresa teria cometido algumas irregularidades no processo da pesquisa publicada pela empresa, que deram resultados positivos em relação ao uso da hidroxicloroquina contra o coronavírus.

Todos os responsáveis pela pesquisa, segundo o jornal, foram chamados para prestar depoimentos ao Conep sobre o assunto e como foi o procedimento feito para que a investigação sobre a hidroxicloroquina chegasse à conclusão sobre o uso com resultados positivos.

Pesquisas com hidroxicloroquina

A intenção da Prevent Senior era de testar a combinação entre hidroxicloroquina e azitromicina (antibiótico) no tratamento de pacientes com sintomas leves e com suspeita de coronavírus. No caso, a motivação seria que os testes mostrassem se havia alguma influência no número de internações dos que usaram o remédio do que quem não o usou. No estudo da Prevent Senior, o uso combinado de hidroxicloroquina com azitromicina teria resultado em taxas de internação de 1,9% dos pacientes contra 5,4% dos que não foram medicados com tal combinação

Mas, segundo o Conep, houve diversas suspeitas de irregularidades. A principal delas foi que as pesquisas foram feitas sem que houvesse o aval oficial da entidade para isto.

Um artigo da Prevent Senior na última sexta-feira (17) mostrava que os testes com a droga foram feitos entre os dias 26 de março e 4 de abril. Mas, apenas dois dias depois (6) do final da pesquisa é que esta foi enviada para ser apreciada pelo órgão competente. E o aval para sua realização saiu apenas no último dia 14.

"Você não pode propor uma pesquisa prospectiva e fazê-la antes disso.

O que a gente tomou de providência foi que retiramos provisoriamente a aprovação do Conep e esclarecimentos dos responsáveis. Se isso for confirmado, é irregularidade e grosseira", afirmou Jorge Venâncio, coordenador do comitê.

Irregularidades da pesquisa

Outra das irregularidades entre o resumo da pesquisa da Prevent Senior e o que havia sido enviado ao Conep é relacionado ao tipo de paciente que faria parte de tais testes.

No resultado divulgado pela empresa, consta que pacientes que tivessem sintomas gripais e suspeita da doença participariam do estudo. Já no pedido de apreciação da mesma, pacientes diagnosticados com o coronavírus seriam alvos da pesquisa com a hidroxicloroquina.

Outro fator explicado pelo comitê é de que a Prevent Senior alegou no estudo que 700 pessoas fizeram parte das pesquisas, mas no Conep, o pedido é que a pesquisa seja feita com 200 pacientes de Covid-19.

"Isso vai ser outra coisa que eles terão de esclarecer", disse Venâncio.

O fato de duas pessoas que participaram da pesquisa terem falecido também lançou suspeitas. Os dois pacientes (que morreram em decorrência de um câncer e de um infarto, respectivamente), segundo a empresa, não tiveram suas mortes ligadas ao uso do remédio, mas sim pelas doenças que já existiam em seu organismo.

Mas, como a hidroxicloroquina pode causar como efeito colateral problemas de ordem cardíaca, todas as mortes do estudo deveriam ser detalhadas e informadas ao Conep.

A não-randomização do estudo também levantou suspeitas do comitê, já que os pacientes que tomaram ou não a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina não foram escolhidos de forma aleatória pelos pesquisadores.

O Conep irá investigar o caso. No caso de que as irregularidades existam, o Ministério Público poderá processar a Prevent Senior ao pôr em risco a vida dos pacientes que se submeteram aos testes com a droga, principalmente porque os protocolos dos testes não haviam sido aprovados.

Prevent Senior

Ao jornal, a Prevent Senior respondeu as indagações sobre as pesquisas feitas com hidroxicloroquina.

A empresa negou que tenha feito qualquer tipo de irregularidade no estudo, mas em vários depoimentos deu declarações contraditórias sobre a autorização do Conep.

Na primeira resposta, a empresa disse que tal estudo seria um 'registro do mundo real', não sendo o mesmo da pesquisa do Conep. Depois, alegou que o estudo seria apenas 'descrição' do procedimento a ser adotado e que os testes foram iniciados apenas no dia 6 de abril, com os tais resultados sendo de tratamentos compassivos (tratamentos recomendados para pacientes em estado grave que tenham o uso do remédio como 'última saída').

Quando foi tido que o Conep havia suspendido a autorização para a pesquisa, a empresa alegou ao Estadão que o estudo teria sido publicado sem autorização da empresa e emitiu uma nota sobre o caso.

"O objetivo da Prevent Senior é o de dividir com outras instituições os resultados obtidos nas pesquisas contra o Covid-19. Todos os esclarecimentos serão prestados ao Conep e permitirão ajustes para que possamos, em conjunto, achar respostas para tentar combater o coronavírus", diz a nota.

Estudos polêmicos sobre a cloroquina

Em Manaus, um estudo realizado com uso da cloroquina indiciou que altas doses do remédio podem causar letalidade maior nos pacientes na qual a droga foi ministrada. Por causa dos efeitos colaterais do remédio, a pesquisa foi interrompida e participantes da pesquisa chegaram a sofrer ameaça de morte.

O remédio virou moda ao ser propagandeado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

O presidente chegou a fazer lives mostrando o remédio e pedindo para que seu uso seja amplificado para todos os pacientes com sintomas de Covid-19. Em protocolos, a cloroquina tem sido usada em pacientes com estado considerado grave.

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