Em plena vigência do Ato Institucional número 5, surgia um dos veículos de imprensa mais irreverentes e chatos (para os militares da época), que retrataria os costumes e a situação sociopolítica naquele ano de 1969. E daí em diante.

O Pasquim conseguiu a proeza de reunir vários intelectuais, entre humoristas, compositores, desenhistas e cineastas, para provocar e afrontar o período mais duro e difícil da história do Brasil: a ditadura, com o ataque às liberdades individuais e o patrulhamento sobre os direitos civis e sobre a pluralidade política.

A semente de criação de jornal “incômodo e subversivo” veio de uma ideia do cartunista Jaguar e dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral.

Misturando o humor inteligente e crítico com reportagens que versavam sobre o comportamento, a revista logo atraiu a atenção de outras pessoas do meio artístico e da imprensa como Vinícius de Moraes, Ziraldo, Paulo Francis, Odete Lara, Chico Buarque, Gláuber Rocha, Millôr Fernandes, Henfil e Ivan Lessa.

Independência

Em seu primeiro número de circulação, em junho de 1969, Millôr Fernandes escreveu: “o que seria apenas uma frase de efeito logo se tornou premonição: se o jornal fosse independente, seria fechado – se não fosse fechado, era porque deixara de ser independente”. O tom bem irônico refletiria, de certa forma, a trajetória de O Pasquim por mais de 20 anos.

No mês de novembro de 1970, alguns integrantes da redação foram presos por ordem do regime militar.

O motivo seria a capa publicada estampando o quadro de Pedro Américo, onde Dom Pedro I exclama que gostaria de comer mocotó, ao invés de proferir a célebre frase “Independência ou Morte”. E além do mais, o Governo proibiu a veiculação da prisão dos envolvidos. A sequência desse episódio termina quando em janeiro do ano seguinte, o grupo noticiou que uma forte gripe havia tomado conta de todos da equipe.

Para completar, O Pasquim estampou a foto da atriz Maria Cláudia com os dizeres “estamos aqui, ó!”.

Não era apenas na capa que o deboche figurava. Em qualquer canto ou sobra de página existia a oportunidade para escrachar. Não raro, logo abaixo do logotipo de O Pasquim apareciam frases como: “quem é vivo, sempre desaparece”, “Pasquim – um folião no velório”.

Uma clara provocação à ditadura.

O grau de contestação e liberdade de imprensa era tal que a entrevista da atriz Leila Diniz foi reproduzida na íntegra, sem cortes. Nela, é possível se ler os mais de 70 palavrões que a própria artista disse nesta entrevista. Para driblar os óculos da censura, Ziraldo teve a brilhante ideia de encurtar palavras, criando neologismos como “duca” e “sifu”.

Ingresso para viajar no tempo

Por tudo isso –e mais– a publicação, que durou até o ano de 1991, ganha uma exposição no Sesc Ipiranga (São Paulo) e se encontra aberta ao público desde terça-feira (19). Lá será possível apreciar todas as 1.072 edições que foram digitalizadas e fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional.

Outros atrativos são a instalação de 33 totens que versam sobre os colaboradores mais atuantes da revista e traz o ambiente de redação com 26 rotativas de diferentes trabalhos publicados –uma maneira de o visitante mergulhar no universo da imprensa da época.

Também há uma seção dedicada ao “Som do Pasquim”, a qual reúne discos de vinil, seguindo em paralelo à impressão do periódico. Pode-se ouvir composições de João Bosco, Fagner, Caetano Veloso e Tom Jobim. Já o “bolachão” denominado “Anedotas do Pasquim” brinda o ouvinte com piadas contadas por Ronald Golias e José Vasconcelos.

Por ser “um jornal a favor do contra”, O Pasquim se colocou como uma ilha de resistência no meio do oceano de repressão.

Em seu auge, vendeu 200 mil exemplares. Caso ainda estivesse em circulação, certamente estaria na internet e nos meios digitais, fazendo parte da democracia do humor e da crítica política. Mesmo assim, não deixa de ser uma inspiração para aqueles que adoram uma esculhambação ou referência, já que o AI-5 de 1968 foi relembrado recentemente como elogio.

Ficha:

Nome: “O Pasquim – 50 anos”

Local: Sesc Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822

Telefone: 3340-2000

Horários da exposição

Terça a sexta-feira: das 9h às 21:30h

Sábados: das 10h às 21:30h

Domingos e feriados: das 10h às 18:30h

Entrada grátis

Até quando: 12 de abril de 2020

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