O romancista, e considerado por muitos o maior de todos os escritores brasileiros, Machado de Assis tem sido bastante lembrado nos últimos dois anos. Primeiramente, as fotos tiradas em seu período maduro de vida o retratavam como uma pessoa branca. Sabidamente, Machado não tinha essa cor de pele, tendendo para o mulato. Por conseguinte, fizeram a (justa e real) alteração para a cor natural de sua tez. Além de reparar um equívoco histórico, significou um avanço da diversidade racial no país e mais cidadania para os negros e miscigenados.

Agora, a principal novidade vem de um artigo publicado em 1859 na revista “O Espelho” escrito supostamente por um Machado de Assis jovem e franzino, quando tinha apenas 20 anos de idade.

A composição tem cerca de três páginas e versa sobe a vida do então imperador do Brasil, Dom Pedro II. O título dado ao texto é “Pedro II. Estudo biográphhico”.

Caçadora de um tesouro

Historiadora e pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), coube a Cristiane Garcia Teixeira a descoberta dessa preciosidade literária. Embora divulgado neste ano de 2020, Cristiane afirma que já em 2016, ao desenvolver sua tese de mestrado, ela havia encontrado elementos que permitiram a associação do texto com as características apresentadas na escrita e no estilo de Machado de Assis.

Alguns dos aspectos argumentativos estão na localização da página e das colunas do texto. Outra pista indicada pela doutoranda catarinense refere-se aos tipos de propaganda que vinham junto com a biografia.

Eles sugeririam que o jovem mulato seria o autor, pois o artigo não está assinado ou sequer mencionado o nome de quem o escreveu.

Indícios do gênio

Porém, os mais fortes sinais de que a obra foi criada por Machado de Assis está na maneira com que ela está escrita. Cristiane aponta que, logo no começo do texto, percebe-se o uso da primeira pessoa e o uso da “pena de galhofa” – ambos características típicas do escritor carioca.

O uso da ironia e da crítica logo aparecem com o desenvolvimento do tema, visto que segundo o que se lê “não se vai tratar de política”, mas Cristiane reitera que o texto é permeado de citações e descrições sobre a política.

Mais adiante, existe um trecho que soa bem sarcástico a respeito do imperador Dom Pedro II: “ele fala das viagens do imperador com dinheiro público.

Diz que quando pediam dinheiro para socorrer o pobre, mas faltava dinheiro para Dom Pedro II, o imperador pelo menos dispensava ‘palavras doces e sinceras’”, conta a historiadora.

Grandiosidade pequena

Machado de Assis não tinha formação acadêmica em História; no entanto, Cristiane Garcia Teixeira ressalta uma visão própria do escritor sobre esse ramo de estudo humano. Apesar de respeitar os historiadores da época, Machado atacava o ponto de vista adotado por eles ao glorificar em demasia os fatos e líderes descritos nos livros e, não perdendo a oportunidade, caçoava do imperador brasileiro.

Ele se sentia mais à vontade ao igualar as “grandes” figuras à gente comum, pois em sua concepção, se algo mudasse no Brasil, essa mudança viria da classe trabalhadora, já que ele não alimentava nenhuma expectativa originada da “elite”.

A revista

“O Espelho” foi uma revista que circulou no Rio de Janeiro entre os anos de 1859 e 1860 e seu conteúdo versava sobre moda, artes, cultura e indústria. Teve um total de 19 edições.

De acordo com a pesquisadora Cristiane, numa edição anterior à publicação da biografia, o periódico citou Machado de Assis como o responsável por este tipo de Literatura. A revista durou cerca de quatro meses e o autor de “Dom Casmurro” e “Quincas Borba” teria redigido 38 artigos.

Apesar de Machado de Assis brotar na escrita e na composição de textos por ser bem jovem, Cristiane Garcia Teixeira afirma que precocemente ele já “tinha uma característica forte que era essa crítica que ele fazia. Ele era um observador da vida social (...) a gente pode perceber no texto d´ O Espelho, claro que foram aprimoradas já adulto.”

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