Ela se apresentava como empresária, rica e bem sucedida. Sempre exibindo roupas de grifes, joias caras e um forte batom vermelho. Ruja Ignatova criou a criptomoeda OneCoin e em junho de 2016, com 36 anos, subiu ao palco no conhecido estádio Wembley, em Londres, para anunciar que seria a "assassina da Bitcoin" –a principal moeda virtual do mercado num sistema que não é controlado pelos Bancos Centrais ou outros órgãos financeiros oficiais. "Em dois anos ninguém mais vai ouvir falar de Biticoin", anunciou diante da plateia entusiasmada.

Na verdade, dois anos depois daquele show, seu paradeiro era –e ainda é– ignorado, informa o site da BBC Brasil nesta terça-feira (26).

Ruja ficou rica. Comprou propriedades milionárias na Bulgária e realizava grandes festas no seu iate de luxo Davina. O problema é que uma criptomoeda necessita de uma base de dados, chamada blockchain, na qual se registram todas as transferências de donos das moedas, evitando que os valores sejam forjados. E, segundo a reportagem da BBC, a empresa não tinha isso. Assim, os valores da OneCoin seriam apenas números digitados por um funcionário.

Ruja procurada pela Justiça

A BBC afirma ter tido acesso a documentos sigilosos comprovando que os britânicos colocaram quase 30 milhões de libras (cerca de R$ 161 milhões) em apenas seis meses no investimento de risco da "cripto-rainha" –conforme a empresária se autodenominava. Não foram apenas os britânicos que aportaram dinheiro. O relatório indica que houve ainda investimentos de paquistaneses, noruegueses, canadenses e até brasileiros.

O departamento de Justiça dos EUA também investiga o caso e afirmou haver indícios de ligações entre o irmão de Ruja –Konstantin Ignatov– e o crime organizado do Leste Europeu.

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Foi justamente Ignatov que assumiu as operações após o sumiço de Ruja. Ele foi detido pelo FBI em março de 2019 e processado por fraude. Os EUA indiciaram ainda Ruja Ignatova por fraude e lavagem de dinheiro, mesmo com o desaparecimento dela.

Apesar de tanta propaganda negativa e processos na Justiça, ainda tem gente investindo na OneCoin, conforme apurou a BBC. Alguns investidores, ouvidos pela reportagem, afirmaram que entraram no negócio pela ambição do enriquecimento fácil e se disseram impressionados pelo poder de persuasão e currículo –Universidade de Oxford e grandes empresas– de Ruja, incluindo uma (falsa) capa na revista de economia Forbes.

Ruja e os novos ricos

A OneCoin teve um rápido crescimento impulsionado por entusiastas do marketing multinível. Muitos líderes desse método enriqueceram rapidamente e montavam reuniões motivacionais mostrando seu patrimônio e convocando as pessoas para também se tornarem milionárias com essa nova criptomoeda.

Para o FBI, o esquema multinível foi perfeito para vender a falsa moeda. Um esquema de pirâmide, que tinha na criptomoeda um produto. Ruja dominava a oratória e utilizava práticas de algumas seitas religiosas, que propagam aos seus seguidores "não acreditar em nada que ouvissem do mundo lá fora", nem mesmo no Google.

A reportagem chega a conclusão que os adeptos eram uma espécie de "haters" –pessoas que odeiam ou criticam algo, geralmente instituições– sem muito critério.

Esse comportamento foi estudado por Eileen Barker, professora do London School of Economics, pesquisadora de cultos messiânicos, entre eles a OneCoin, onde a mensagem central é que os membros pertencem a algo maior que vai mudar o mundo, mesmo diante de qualquer evidência contrária. Para a professora, é muito difícil os seguidores admitirem que se enganaram.

A OneCoin estava operando até recentemente e nega as acusações. O paradeiro de Ruja é ignorado. Existem rumores apurados pela reportagem que ela tem passaporte ucraniano e russo. Nascida na Bulgária, Ruja teria sido vista em restaurantes caros em Atenas, enquanto outros dizem que está morta. Em 2016 ela teve uma filha e postou em redes sociais a foto do bebê em Frankfurt (Alemanha), onde morava com o marido, ou ex.

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