Em meio à pandemia de coronavírus, a cidade equatoriana de Guayaquil sofreu um colapso durante um violento surto de contaminação de Covid-19 no mês de março.

Em uma situação totalmente fora de controle, hospitais, cemitérios e necrotérios da região entraram em colapso total e as vítimas da pandemia passaram a ser empilhadas nas ruas para então serem identificadas e recolhidas.

Terror

Os familiares das vítimas de coronavírus em Guayaquil passaram um verdadeiro terror. Contêineres instalados em hospitais foram empilhados com dezenas de corpos sem nenhum tipo de identificação, onde moradores reviravam os corpos em busca de seus entes queridos.

Nesta semana, quatro meses após a explosão do surto de coronavírus, o Laboratório de Criminalística da Polícia Nacional iniciou os trabalhos para identificação e entrega de alguns corpos. Cerca de 50 cadáveres foram entregues às famílias.

Decomposição

A identificação dos corpos está sendo realizada através de exames de DNA. Até quinta-feira (16) da semana passada haviam mais de 100 corpos não-identificados, já em estado de decomposição.

O reflexo da pandemia em Guayaquil foi tão devastador que, além da situação terrível que as famílias estão passando, não existe sequer registros de quantas pessoas dadas como desaparecidas foram vítimas do novo coronavírus.

Depoimento de Silvia Guzmán

Silvia Guzmán faz parte dessas famílias.

Seu marido, Félix Merchán, é uma das pessoas que desapareceu por meses durante o surto, fazendo com que Silvia o procurasse desesperadamente até que ele fosse identificado.

Em entrevista para a BBC News Mundo, Silvia declarou que o marido estava muito bem e, de repente, adoeceu de uma hora pra outra.

Ela conta que Félix passou muito mal durante uma madrugada, quando relatou dificuldades em respirar. A família buscou ajuda médica percorrendo todos os hospitais da região, porém, devido à superlotação causada pelo colapso, Félix não pode ser internado.

Ainda de acordo com a esposa, a falta de oxigênio nos hospitais impedia o atendimento e que seu marido fosse realmente ajudado.

Após passarem por vários hospitais da cidade, às 9h da manhã seguinte ele foi finalmente atendido no Hospital del Guasmo Sur, que, apesar da falta de leitos, o manteve em uma cadeira de rodas na sala de emergência.

Silvia conta que os pacientes eram muitos e estavam amontoados nos quartos e corredores do hospital. Era como estar em uma guerra sem armas; uma guerra biológica, segundo ela.

Antes de perder a consciência, Félix conseguiu se despedir da esposa dizendo que não sairia dessa e pediu para que Silvia se cuidasse. "Lembre-se de que eu sempre estarei com você", reproduz Silvia as últimas palavras ditas por ele.

No dia 1° de Abril, Félix veio a óbito nos braços da esposa, que relata a sensação de impotência diante da situação de vê-lo morrer sem poder fazer nada, vendo a vida de Félix desaparecer lentamente.

O corpo

Após a confirmação da morte, Silvia foi retirada do lugar por um médico que mencionou a intensa carga viral presente. Ela assinou o formulário para a retirada do corpo e foi embora.

Na manhã seguinte, Silvia voltou ao hospital para buscar o cadáver do marido que já havia desaparecido, perdido em pilhas de corpos nos hospitais, que não tinham mais onde colocá-los. A esposa de Félix, assim, não fazia ideia de onde ele estava.

Comparando a situação ao roteiro da série "The Walking Dead", Silvia relata as cenas horríveis de corpos largados no chão sem refrigeração e nenhum tipo de cuidado.

Para entrar nos contêineres onde empilharam os corpos era efetuada uma cobrança de U$S 100 a U$S 300 e, mesmo assim, os que conseguiam garantir a entrada precisariam remover os plásticos que cobriam os mortos para tentar identificá-los.

Silvia relata que durante oito dias seguidos ela ia ao necrotério e hospital para tentar encontrar o corpo de seu marido, até que o governo decidiu que enterraria os cadáveres e não os entregaria mais as famílias.

A notícia abalou demais, Silvia queria muito se despedir de seu esposo por uma última vez, ao receber a informação de que o nome de Félix estaria disponível em um site do governo, que informaria o cemitério onde o corpo foi enterrado, ela tentou por três semanas seguidas, mas Félix nunca apareceu nos registros.

Foi assim que, apenas recentemente, cerca de quatro meses após a morte de Félix que o corpo foi encontrado para, assim, ser sepultado.

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