Catulo da Paixão Cearense foi uma figura polêmica na vida cultural brasileira. Deixou sua marca não apenas nos livros, textos teatrais e letras de músicas, mas na modéstia, costumava se autodefinir como "o papa dos cantores". A pequena rua onde residiu durante mais de 30 anos, no Engenho de Dentro, recebeu postumamente o seu nome. Homenagem mais do que merecida: Catulo era bairrista e sempre se fechou nos limites da vizinhança.

Sua ampla casa, conhecida com bom humor nas redondezas como "Palácio Choupanal", já não existe. Porém, conta-se que durante anos era ponto de encontro concorrido da boemia carioca.

O poeta tinha hábitos peculiares. Gostava de andar pelas ruas do bairro em trajes excêntricos: casaco de pijama, calça de brim amarrada com barbante, tamanco e chapéu de palha. Apesar da fama, morreu pobre , em 1946, aos 73 anos, tendo ao seu lado apenas os amigos de seresta.

Nascido no Maranhão, Catulo chegou ao Rio na virada do século.

O interesse pela cultura popular aproximou-o do violão, instrumento que, segundo pesquisadores musicais, ajudou a introduzir nas festas de elite, já que até então estivera restrito às rodas da malandragem carioca. Como compositor, sua faceta mais conhecida do público, foi responsável pelas letras de música como "Luar do Sertão", "Cabocla Caxangá" e "Ontem ao luar". Mostrou-se inovador quando rejeitou as operetas europeias para abraçar a mazurca, o maxixe e a valsinha, ritmos de origem popular.

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Álbum lançado em março de 2018 revisita obra do artista que levou o violão às festas da elite no Rio no começo do século 20

Os versos de “Luar do Sertão”, uma das mais populares canções brasileiras, foram gravados pela primeira vez em 1914, na voz do cantor Eduardo das Neves. São obra do poeta Catulo da Paixão Cearense e têm mais de 150 interpretações diferentes, entre elas as de Luiz Gonzaga, Maria Bethânia e Milton Nascimento.

A toada é um dos sucessos que integram a recém-lançada homenagem ao letrista, o álbum “A Paixão Segundo Catulo”, do Selo Sesc. O registro é fruto de uma série de espetáculos iniciada em 2016, que revisitou as diversas fases de sua produção: modinhas, valsas, toadas e o envolvimento do poeta com a música erudita.

A seleção do álbum conta com 15 canções do repertório dos espetáculos, interpretadas por Joyce Moreno, Leila Pinheiro e Claudio Nucci, entre outros artistas.

A maioria delas, parcerias do escritor com grandes instrumentistas, como Ernesto Nazareth, Antonio da Silva Callado e João Pernambuco.

Catulo da Paixão Cearense fez versos para ao menos 150 canções, escreveu livros de poesia, a peça de teatro “Um Boêmio no Céu”, levou o violão da marginalidade para as festas da elite política e intelectual no país e foi capaz de detectar o potencial da letra para uma música instrumental.

“Músicas de choro são muito sofisticadas, com melodias muito contornadas. Normalmente, por serem instrumentais, têm um andamento um pouco mais ligeiro. Na época ainda não eram chamadas de choro, eram as danças europeias: polca, xote, valsa. Catulo desacelerou o andamento dessas músicas, e elas viraram modinhas”, explicou Mário Sève, produtor do disco em homenagem a Catulo, ao Nexo. “Ele identificou que essas músicas, se ele colocasse letras, veiculariam sua poesia e se tornariam mais populares.

E foi o que aconteceu.”

Um exemplo de composição reformulada a partir da letra é “Choro e Poesia”, de Pedro de Alcântara. Foi transformada em “Ontem ao Luar”, sucesso que abre o álbum “A Paixão Segundo Catulo”.

Poeta, músico, professor, estivador

Apesar do que sugere o sobrenome, Catulo da Paixão Cearense nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1863. Passou parte da infância e adolescência no Ceará — estado de origem de seu pai, que decidiu agregá-lo ao nome da família —, onde teve contato com a literatura de cordel e com cantadores nordestinos, como Inácio da Catingueira e Manoel do Riachão.

“Foi o violão que me levou até a poesia. Eu formara minha sensibilidade ao contacto da natureza, amando o mar, em Ponta da Areia, ou seguindo com o coração aqueles cantadores anônimos que passavam por mim, em Maranguape, para onde se mudara meu pai depois da estada em São Luís do Maranhão. Quando eles iam, meu pensamento ia com eles.[...] Aos 17 anos, já no Rio, essa impressão do sertão ‘inda não havia se apagado. Tornei-me boêmio, aprofundei-me no violão e na modinha”, disse em uma entrevista ao jornal paulistano A Gazeta, em 1941.

Catulo foi com a família para o Rio de Janeiro em 1880. Logo teve contato com compositores de choro em uma república de estudantes em Copacabana, e começou a compor e tocar, a contragosto do pai, que queria afastá-lo da boemia.

Apesar da poesia de versos “ostentosos, excessivos em metáforas e abundantes em elocuções pernósticas”, segundo o musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello, Catulo ganhou a alcunha de poeta do sertão “quando introduziu em sua poética a linguagem herdada do que ouvia na adolescência vivida no Nordeste”.

Em “Cabocla de Caxangá”, como em outras canções emblemáticas, o letrista abre mão da pompa e opta por uma linguagem simples e fiel à fala do homem sertanejo.

No Rio de Janeiro, Catulo trabalhou como estivador e, por algum tempo, dividiu sua rotina entre o cais do porto e as serestas, populares rodas de modinha ao luar. Apesar de ter interrompido os estudos de maneira formal, o poeta continuou a estudar por conta própria e, mais tarde, tornou-se professor.

Uma passagem marcante na trajetória de Catulo foi a apresentação na casa do senador carioca Gaspar de Oliveira Martins.

Depois do sucesso do recital, foi convidado para dar aulas aos filhos de Martins e mudou-se para sua casa. Mais tarde, fundaria uma escola no bairro da Piedade, subúrbio do Rio.

A vitória da modinha

Em 1908, o poeta maranhense levou suas canções populares ao Instituto Nacional de Música, espaço de predominância da cultura erudita, a convite do maestro Alberto Nepomuceno. O recital foi uma espécie de marco na entrada da modinha e do violão na vida da elite intelectual carioca.

“Eu o reabilitei e tornei o instrumento amaldiçoado pelos pais de família num instrumento que podia entrar em qualquer casa.

Antes de mim, o violão era do capadócio; depois de mim, o violão passou a ser da poesia”, disse em entrevista ao jornal A Gazeta.

Parte do público que assistiu às modinhas de Catulo no conservatório era constituída por diplomatas, escritores, ministros, poetas e jornalistas. “Foi essa a primeira grande vitória da minha vida. Daí por diante foi o sucesso social. Agora a modinha entrava no salão das famílias e eu era convidado para cantar nas casa mais ilustres do Rio.”

A origem do gênero

As modinhas têm raízes europeias, sobretudo ibéricas.

São cantos de amor, sentimentais, geralmente carregados de nostalgia, comuns nos meios urbanos. Segundo a soprano e folclorista Elsie Houston em “Cantos Populares do Brasil”, representam uma transição entre a música de compositor e as canções feitas por meio da tradição oral.

“A modinha foi o primeiro gênero musical brasileiro, está associada aos cantos com influência da música europeia, da música tonal, que veio depois do barroco. São melodias com frases [musicais] descendentes, sempre têm uma coisa melancólica, meio triste”, diz o músico Mário Sève.

Catulo fez inúmeras apresentações de suas modinhas no Palácio do Catete, sede do governo federal, no Rio de Janeiro. Mostrou sua música a Nilo Peçanha e Getúlio Vargas, entre outros presidentes. Possivelmente, a mais memorável delas é o recital para o então governante Hermes da Fonseca, em que, além do próprio repertório, cantou também o maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga, e foi acompanhado pela primeira-dama ao violão, um escândalo para a época.

Autorias indefinidas

A obra de Catulo da Paixão Cearense, querida pelas elites, teve grande apelo popular. Em uma campanha encabeçada pelo jornal carioca A Noite, em 1939, o letrista foi homenageado com um busto instalado no Palácio do Monroe, no Rio de Janeiro. A escultura foi financiada coletivamente, na chamada “Campanha do Tostão”.

O poeta morreu em 1946, aos 83 anos, e recebeu inúmeras homenagens de músicos, fãs e instituições como a Academia Brasileira de Letras. O mesmo jornal que promoveu a criação de sua estátua descreveu seu enterro como uma “apoteose popular”.

Apesar do alcance de sua obra, uma questão de autoria ronda alguns sucessos do poeta. Se sua capacidade como letrista foi amplamente reconhecida, a habilidade de compor melodias, por outro lado, era questionada por seus colegas.

Segundo Zuza Homem de Mello, o compositor Heitor Villa-Lobos dizia que Catulo era “incapaz de escrever uma célula melódica que fosse”, embora, para o pesquisador, a visão seja “certo preconceito do maestro”.

A autoria da melodia de “Luar do Sertão”, sua obra mais conhecida, foi reivindicada pelo músico João Pernambuco anos depois de seu lançamento. A música é originada da toada “Engenho de Humaitá”.

O mesmo ocorreu com “Cabocla de Caxangá”, sucesso do carnaval carioca em 1913. A composição foi inicialmente assinada só por Catulo, mas ele também teria se inspirado em uma música apresentada pelo violonista.

No álbum “A Paixão Segundo Catulo”, a canção “Amenidade” é a única cuja melodia, e não só a letra, é reconhecida como obra do poeta. “É uma melodia muito simples, não é tão rebuscada quanto as das outras músicas [para as quais ele fez letras] que foram compostas por chorões como Nazareth, Callado, Pedro de Alcântara. É possível que ele tenha feito essa música, porque ele tocava violão e cantava”, diz Mário Sève.

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