A pandemia do novo coronavírus demonstrou como a presença do poder público é importante na vida da população. Trabalhando diretamente com o setor, a Fundação João Pinheiro, instituição destinada à pesquisa aplicada nos campos da economia, da administração e da tecnologia básica e social, mostra como um estado consolidado e organizado tem grande influência e valor na vida cotidiana da população.

"Todos os cidadãos se beneficiam, mesmo que indiretamente, das entregas da FJP (Fundação João Pinheiro), seja porque os gestores públicos tomarão decisões mais acertadas, baseados nos conhecimentos produzidos, ou porque estes mesmos gestores estão bem capacitados", destaca o presidente da Fundação João Pinheiro, Helger Marra, em entrevista exclusiva à BlastingTalks.

O presidente da FJP ainda vai adiante e elogia a necessidade de um Estado consolidado para proporcionar suporte à população em momentos de crise. "Entende-se que a manutenção e extensão do auxílio emergencial (ou outra política correlata) foi fundamental para amenizar a situação, manter a economia ‘girando’ e para ajudar na recuperação econômica", opina Marra.

Além da importância, o presidente da Fundação ainda vê com bons olhos a evolução da administração pública. "A Administração Pública tem avançado nos últimos anos no sentido de uma Administração Pública mais eficiente", finaliza.

Confira a entrevista na íntegra.

Blasting News: Recentemente a Fundação João Pinheiro completou 50 anos de existência.

Como é o trabalho da fundação e como você enxerga a importância dela nesse meio século de atividade?

Helger Marra: A Fundação João Pinheiro (FJP) foi criada em 12 de dezembro de 1969, a partir da Lei Estadual nº 5399, que autoriza compor uma instituição destinada à pesquisa aplicada nos campos da economia, da administração e da tecnologia básica e social.

Assim, a FJP nasceu com objetivo claro de auxiliar o Governo do Estado de Minas Gerais na leitura, compreensão e análise da realidade econômica e social mineira. Já na primeira década de sua existência, a FJP participou de projetos de muita relevância, como o Plano Mineiro de Desenvolvimento Econômico e Social (PMDES), quando por consequência o estado passou a crescer de forma favorável, apresentando taxas médias anuais superiores às do país.

Também nessa época, já surgia na FJP uma publicação referência em sua área, a revista Fundação JP Análise e Conjuntura, além dos programas editoriais da Coleção Centenário e Coleção Mineiriana, com obras de referência para a história e cultura da capital e do estado de MG.

Desde os primeiros anos, a FJP também valorizou a formação e qualificação de pessoas, razão pela qual executava cursos de especialização em administração para altos executivos. Nos períodos seguintes, essa formação foi ampliada para um curso de Especialização em Administração Pública e também para os cursos Superior de Administração Pública e de Mestrado em Administração Pública, existentes até os dias atuais. Outros cursos de especialização foram surgindo ao longo do tempo, como o Curso de Especialização em Gestão Financeira e Orçamentária no Setor Público e o de Especialização em Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas, bem como cursos de capacitação e aperfeiçoamento em temas da administração pública, como “Liderança em Tempos de Teletrabalho” e “Contratações Públicas em Tempos de Covid-19”, estes muito atuais.

Também ao longo de sua trajetória, a FJP recebeu a competência de produção e divulgação de dados e informações estatísticas, a qual respondeu com o desenvolvimento de projetos como o cálculo do Produto Interno Bruto de MG; o cálculo do déficit Habitacional no Brasil, que ainda hoje subsidia a criação de políticas habitacionais no país; a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED0, a Pesquisa por Amostra de domicílios (PAD), o Sistema Estadual de Informações sobre Saneamento (SEIS), cálculos da Lei Robin Hood, e o Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS). Atualmente elaboramos cenários que visam acompanhar e propor medidas de natureza fiscal, econômica e financeira para a recuperação da economia mineira, abalada pelos desdobramentos da pandemia da Covid-19.

No segmento de políticas públicas, a FJP desenvolveu projetos que fornecem subsídios para que gestores públicos orientem suas ações e direcionem esforços e recursos de forma consistente para a formatação e execução de políticas e programas adequados às especificidades das diferentes regiões de Minas Gerais e do Brasil. Pode-se citar, por exemplo, as avaliações de impacto dos seguintes programas governamentais: Programa de Redução da Mortalidade Infantil e Materna (Viva a Vida), Programa Minas sem Fome; Programa de Fortalecimento e Melhoria da Qualidade dos Hospitais do SUS/MG (Pro-Hosp), Escola de Tempo Integral; Poupança Jovem; Projeto Pavimentação de Ligações e Acessos Rodoviários aos Municípios (Proacesso), entre outros.

Atualmente estamos realizando, em parceria com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, o monitoramento e avaliação do Programa Bolsa Merenda.

No âmbito de planejamento regional, há mais de 20 anos assessoramos prefeituras no desenvolvimento de seus Planos Diretores Participativos, e também elaboramos planos em níveis macroestruturais, como o Programa Estadual de Centros Intermediários do Estado de Minas Gerais (Proeci), o Programa Permanente de Desenvolvimento Municipal (Prodemu), o Programa de Saneamento Ambiental, Organização, Modernização dos Municípios do Estado de Minas Gerais (Somma), o Projeto de Metropolização de Centros Médios com Proposta de Processos de Gestão a Partir do Caso do Vale do Aço de Minas Gerais e o Plano de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha.

Considerando o período mais recente, mantendo a atuação conforme a finalidade estabelecida para a FJP, realizamos entregas importantes como a nova plataforma do Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, em parceria com o PNUD e IPEA; efetuamos a coordenação técnica do Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) e a coordenação, em parceria com a Seplag, do Programa de Desenvolvimento de Lideranças (PDL) para os Subsecretários do Governo de Minas; e conduzimos, com a participação de doze estados brasileiros, o Programa de Formação em Gestão de Pessoas. Mantivemos a excelência do ensino, com nota máxima no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e alcançamos o primeiro lugar dentre 1.874 cursos de administração, administração pública e de tecnologia em gestão pública avaliados pelo Inep.

A fundação é muito reconhecida por suas pesquisas, principalmente na área econômica. Partindo deste aniversário de 50 anos da fundação, quais são as novidades que a instituição planeja trazer para os próximos anos?

Um dos objetivos da FJP é subsidiar o estado com informações e estatísticas de forma organizada e dar facilidade para seu acesso e usabilidade, de tal forma que, para os próximos anos, desejamos:a) Aprimorar as pesquisas já realizadas, principalmente na parte de acesso, possibilitando que o setor público, academia e outros usuários tenham conhecimento de bases de dados relevantes para suas demandas;b) A pandemia “estimulou” a FJP a responder e disponibilizar mais rapidamente as informações demandadas pelos órgãos estaduais.

Esse aprendizado está sendo endogeneizado para que o tempo entre a coleta e a disponibilidade de informações compiladas seja cada vez menor;c) O munhttps://br.blastingnews.com/news/tag/mundo/do está passando por uma transformação radical na geração e tratamento de dados. O estado vem aperfeiçoando a coleta de dados através, tanto de instrumentos usuais, quanto de novas formas de registros administrativos. Uma característica comum, e que corrobora o que se observa em outras áreas de tratamento de dados, é a presença de dados de alta frequência (big data), como, por exemplo, nas notas fiscais da Secretaria de Estado de Fazenda, nos operadores do sistema elétrico, ou outras formas de dados que já contam com coleta e representação geolocalizadas.

A FJP já iniciou seu processo de transformação digital e no futuro próximo terá condições de disponibilizar para a sociedade a unificação e compartilhamento das bases de dados entre as diversas áreas de pesquisa.

A Fundação João Pinheiro é uma instituição vinculada à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais. Qual o papel dela dentro da sociedade e como ela pode ajudar o cidadão?

A inserção da FJP na sociedade está declarada no propósito da instituição, que é ser referência como instituição de pesquisa, ensino, avaliação e apoio ao processo de tomada de decisão na gestão de políticas públicas, desenvolvendo projetos e serviços de excelência para o setor público e a sociedade e valorizando a diversidade e qualidade da equipe.

Dessa forma, todos os cidadãos se beneficiam, mesmo que indiretamente, das entregas da FJP, seja porque os gestores públicos tomarão decisões mais acertadas, baseados nos conhecimentos produzidos, ou porque estes mesmos gestores estão bem capacitados. É possível também que o cidadão busque, de forma direta, aprimorar sua percepção sobre a realidade em que vive, com intuito de aprimorá-la, razão pela qual estão disponíveis para consulta dados, informações e conhecimentos no site da instituição, bem como oportunidades de formação e capacitação em diversas áreas; tudo com a finalidade maior de promover o desenvolvimento sustentável e a construção de uma sociedade mais justa.

Tem sido assim ao longo desses 50 anos de existência, prestando serviços de reconhecida excelência a instituições nos âmbitos federal, estadual e municipal para instituições públicas e privadas, universidades, centros de pesquisas e entidades representativas de diversos segmentos sociais.

Sua atuação perpassa aspectos econômicos, sociais e ambientais como formulação, monitoramento e acompanhamento de políticas públicas; planejamentos regionais; produção e divulgação de dados e informações estatísticas; formação de recursos humanos em diversos níveis de ensino; estudos estaduais de geoinformação e projetos aplicados em diversas áreas do conhecimento. Desta forma, pode-se dizer que a FJP é hoje uma referência nacional em seu campo de atuação, conforme explicitado em sua missão, que é contribuir estrategicamente para efetividade de políticas públicas relevantes para a sociedade, interligando competências técnico-científicas e gestão governamental.

Uma das pesquisas mais tradicionais da Fundação João Pinheiro é referente ao cálculo do PIB do estado de Minas Gerais. De que forma esse trabalho é feito e quais os principais desafios?

O cálculo do PIB do estado de Minas Gerais é realizado na Fundação João Pinheiro dentro da Coordenação de Contas Regionais na Diretoria de Estatística e Informações (Direi). As informações produzidas no núcleo podem ser organizadas em dois sistemas integrados que se complementam no que tange ao cálculo do PIB: o Sistema de Contas Trimestrais (SCT-MG) e o Sistema de Contas Regionais (SCR). Na mesma diretoria, a Coordenação de Análise Insumo-Produto calcula o PIB pelas três óticas (renda, demanda e produção) para os anos que elabora a Tabela de Recursos e Usos (TRU).

O Sistema de Contas Trimestrais de Minas Gerais (SCT-MG) desempenha importante papel para os formuladores de políticas públicas, tendo em vista que disponibiliza indicadores que retratam a evolução recente da dinâmica do Estado e permite acompanhar o desempenho dos diferentes setores e atividades produtivas em âmbito estadual no curto prazo. A relevância da construção de uma metodologia de contas trimestrais estaduais e sua atualização metodológica está no fato de o indicador do PIB Trimestral e sua decomposição setorial constituírem um “termômetro” para o comportamento das atividades econômicas. É por meio do SCT-MG que se garante tempestividade e agilidade na obtenção de informações relativas ao desempenho da atividade produtiva aos diversos atores e agentes econômicos. Os resultados apresentados nas contas trimestrais são sempre preliminares e sujeitos à revisão em razão do caráter conjuntural das fontes iniciais utilizadas no cômputo do cálculo. A divulgação do SCT-MG apresenta a evolução do PIB real e sua decomposição setorial em quatro óticas de comparação: trimestre contra mesmo trimestre do ano anterior; trimestre contra trimestre imediatamente anterior (série com ajuste sazonal); acumulado no ano; e anualizado em doze meses (compara os quatro trimestres completados no trimestre de referência com os quatro trimestres anteriores). O SCT-MG tenta ser o mais fiel possível às recomendações do IBGE utilizando os mesmos indicadores (ou indicadores similares sempre que possível) e ajustando seus resultados aos dados do órgão nacional de estatística. Sua construção e atualização metodológica só são possíveis em razão da experiência e expertise dos técnicos do núcleo inseridos no trabalho conjunto de produção das estatísticas definitivas com o IBGE.

O Sistema de Contas Regionais (SCR) produz os dados consolidados (definitivos) do PIB dos estados sendo compatível com o Sistema de Contas Nacionais. Os resultados produzidos pelo SCR saem com uma defasagem de dois anos e são comparáveis entre as unidades da federação pela adoção de uma metodologia harmonizada pelo IBGE. A defasagem de dois anos decorre do tempo de divulgação de bases de dados mais robustas e de pesquisas estruturais do IBGE (como a Pesquisa Industrial Anual (PIA), a Pesquisa Anual da Indústria da Construção Civil (PAIC), a Pesquisa Anual de Comércio (PAC), a Pesquisa Anual de Serviços (PAS), a Produção Agrícola Municipal (PAM), a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) e a Produção da Extração Vegetal e Silvicultura (PEVS)), o trabalho de crítica dessas bases e sua tradução na linguagem do SCR.

Todo o trabalho de cálculo realizado pelo Sistema de Contas Regionais (SCR) e do PIB dos municípios é realizado em rede entre o IBGE e as Instituições de Pesquisas Estaduais (IPES) –no caso de Minas Gerais, a Fundação João Pinheiro. Decisões sobre ajustes nos procedimentos e adaptação a novas recomendações internacionais ou novas fontes de dados são tomadas no comitê nacional. Esse comitê é formado por alguns representantes estaduais e do IBGE que se reúnem anualmente para discussão dos resultados e tomada de decisão. A Fundação João Pinheiro possui dois representantes nesse comitê. Existe também uma plenária geral em que representantes de todos os estados participam e os resultados antes de serem validados são apresentados. Vale dizer que, no trabalho do SCR e do PIB dos municípios todos os cálculos são submetidos à crítica e aprovação dos componentes da rede.

Um enorme volume de informações é processado nesse trabalho realizado em parceria a cada rodada de cálculo e isso é um dos grandes desafios na apuração do resultado do PIB: processar uma grande quantidade de indicadores de diversas fontes em tempo hábil, criticar os resultados das pesquisas econômicas obtidos e traduzir esses resultados na linguagem e recomendações do manual internacional (atualmente o System of National Accounts 2008). Outros desafios no que se refere ao cálculo do PIB ocorrem justamente por conta das atualizações nas recomendações internacionais que resultam em mudanças no tratamento de cálculo em alguns agregados econômicos no momento de alteração do ano de referência, a realização da retropolação (revisão da série para os anos anteriores) e, finalmente, no trabalho incessante pela busca de novos indicadores que melhor representam a evolução real de cada atividade econômica. É importante ressaltar que recentemente a Fundação João Pinheiro investiu na modernização e transformação digital com realização de cursos (como curso de R e de Python) que foram fundamentais para acelerar o processamento de cálculo e facilitar a extração dos dados utilizados no cômputo de cálculo do PIB.

Para encerrar, os resultados do PIB municipal são divulgados aproximadamente um mês depois da divulgação do SCR tendo em vista que a metodologia do PIB dos municípios envolve o rateio dos resultados setoriais consolidados das contas regionais por critérios específicos de distribuição para cada atividade econômica. Por isso, o PIB dos municípios também é divulgado com uma defasagem de dois anos. Além disso, o cálculo do PIB dos municípios é padronizado (metodologia única que possibilita a comparação entre os entes municipais do país) e integrado ao SCR. Os resultados do produto agregado em nível municipal são desagregados em 4 atividades econômicas (Agropecuária, Indústria, Administração Pública e demais serviços), além dos impostos indiretos líquidos de subsídios.

O cálculo do PIB pelas três óticas é elaborado com a construção da TRU e requer uma compatibilização das pesquisas estruturais econômicas (já citadas) para a elaboração pelo lado da produção e também outras bases de dados como Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), Siscomex, Receita Federal e Notas Fiscais Eletrônicas para elaboração pelo lado da demanda e da renda para 57 setores. O desafio é a compatibilização dessas bases e também as análises e discussões para o equilíbrio entre oferta e demanda que possibilitam o resultado final. A metodologia utilizada é compatível com a adotada pelo IBGE para as Contas Nacionais e Contas Regionais.

A partir da TRU é possível identificar as relações intersetoriais na economia de Minas Gerais bem como as cadeias produtivas que impulsionam o PIB. É uma base que permite o acompanhamento estrutural do PIB. Com os avanços recentes, a partir do processo de transformação digital, a TRU terá divulgação bianual.

Avanços estão sendo realizados para o cálculo do PIB do agronegócio anualmente pelas duas Coordenações. A metodologia adotada será da FJP e requer a identificação da geração de valor adicionado pela cadeia produtiva do agronegócio advindo do cálculo estrutural bem como a evolução anual.

Além da parte de pesquisa, a fundação tem um reconhecido trabalho de formação de gestores públicos. Qual a importância desse tipo de formação na qualidade da administração pública?

Especialmente nos países da América Latina, nos quais o Estado tem sido o principal responsável pelo processo de desenvolvimento, ao longo dos anos, a formação adequada de gestores tem um papel central. Nesse sentido, tem-se o contexto da criação das escolas de governo, no Brasil, na década de 1980, com o intuito de concentrar-se esforços na criação de infraestrutura institucional para a formação e aperfeiçoamento de recursos humanos especializados para o sistema administrativo, sendo considerada fundamental a capacitação e desenvolvimento dos servidores, essencialmente para o provimento de funções de gestão e assessoramento.

Estudos constatam que nenhum processo de reforma, nenhum sistema gerencial, pode prosperar sem o desenvolvimento de pessoas, por meio da formação de alta qualidade (Souza, Eda Castro Lucas de, RAP, 2002). Investir na formação do gestor público é fundamental para uma Administração Pública mais eficiente. Os resultados não serão imediatos, mas o retorno certamente virá. Conforme Crozier (1998) é necessário crer em uma formação de excelência associada à estratégia de mudança, à pesquisa de alto nível em matéria de políticas públicas e a novas experiências de preparação e avaliação das decisões públicas.

A Administração Pública tem avançado nos últimos anos no sentido de uma Administração Pública mais eficiente, tal como preconizado pela Emenda Constitucional 19, e considero para tal, necessária a formação do Gestor no que tange às temáticas da Administração Pública, o que envolve Gestão de Pessoas, Planejamento Estratégico, Administração de Materiais, Projetos, Processos, Qualidade, Orçamento Público, dentre outros temas, todos eles tratados em cursos ofertados pela Escola de Governo.

Merece destaque o curso de Administração Pública da Escola de Governo/FJP, que mantém um histórico de excelentes classificações nas avaliações oficiais do país: na última edição do Exame Nacional do Desempenho dos Estudantes (Enade), referente ao ano de 2018 e divulgada no ano de 2019, obteve o primeiro lugar entre os 1.874 cursos de Administração Pública. Na edição de 2018, além do Csap, somente outros 23, de 8.520 graduações de diversas áreas abarcadas pelo exame, alcançaram o conceito máximo.

Como você enxerga a retomada econômica pós-pandemia, tanto em Minas Gerais como no resto do Brasil?

O que parte significativa dos especialistas e técnicos que acompanham a conjuntura econômica espera é uma retomada da economia lenta pós-pandemia no Brasil e em Minas Gerais, dada a gravidade da situação: muitos estabelecimentos e empresas foram fechados definitivamente, outros sobrevivem por “aparelhos” e o desemprego aumentou no período. Tudo indica que após a retração econômica no primeiro trimestre de 2020 na série com ajuste sazonal do PIB (-1,4% em Minas Gerais e -2,5% no Brasil) e o colapso no segundo trimestre de 2020 (-9,8% em Minas Gerais e -9,7% no Brasil) ocasionado pelo receio de contágio por parte dos consumidores e as restrições mais severas para a operação das empresas, que a recuperação que deve se iniciar a partir do terceiro trimestre de 2020 deva ser bastante lenta e está associada a volta paulatina dos segmentos econômicos paralisados, sobretudo aqueles que dependem da circulação das pessoas e que foram duramente afetados pelo isolamento social (artes, cultura, esporte, recreação, cinema, teatro, salões de beleza, academia, alojamento, bares, restaurantes, alimentação fora do domicílio, atividades turísticas, serviços prestados às famílias, transporte aéreo, etc).

Essa retomada lenta deve ocorrer pelo fato da pandemia ter afetado simultaneamente a oferta e a demanda agregada da economia, ilustrando a gravidade do contexto econômico. Por conta disso, entende-se que a manutenção e extensão do auxílio emergencial (ou outra política correlata) foi fundamental para amenizar a situação, manter a economia “girando” e para ajudar na recuperação econômica. Tanto que nesse primeiro semestre de 2020 alguns segmentos que apresentaram resultados positivos (como fabricação de produtos alimentícios, venda nos hipermercados e supermercados e de materiais de construção civil e de fármacos) podem estar associados a manutenção de um ritmo mínimo do consumo das famílias possivelmente proporcionado pelo auxílio financeiro emergencial (claro que isso deve ser investigado de maneira mais aprofundada).

Os indicadores de confiança (que funcionam como indicadores antecedentes) também parecem apontar uma recuperação suave. Por exemplo, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) em Minas Gerais começa a apontar melhora nas expectativas e o mesmo vale para os indicadores de confiança do consumidor. Os dados, para o Brasil, de consumo de energia elétrica e dados financeiros como transferência bancária e uso de cartão de crédito (intermediação financeira) apresentam uma recuperação (no caso do primeiro com um retorno mais lento). Tudo indica também que os segmentos associados à tecnologia da informação foram menos afetados e devem manter um dinamismo na retomada.

Analisando os indicadores conjunturais dos últimos meses (julho e agosto), os dados da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF) para Minas Gerais apontam a manutenção do dinamismo da indústria alimentícia, uma melhora da produção da indústria têxtil (severamente afetada no segundo trimestre) e uma retomada parcial da indústria metalúrgica com reativação de alguns alto fornos que foram anteriormente desligados (o que é muito importante para Minas Gerais tendo em vista o peso que a indústria metalúrgica possui na economia mineira). Em relação à Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) para Minas Gerais nos meses de julho e agosto, nota-se a manutenção do dinamismo nas vendas de hipermercados e supermercados e de material de construção e uma retomada nas vendas de tecidos, vestuário e calçados (sobretudo no mês de agosto). Pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) é possível perceber para Minas Gerais que os serviços de informação e comunicação e os serviços profissionais, científicos, administrativos e complementares foram menos afetados pela pandemia (corroborando o que foi mencionado anteriormente).

Todo esse cenário pode ainda ser impacto pela expectativa dos agentes quanto à segunda onda da Covid-19 no Brasil, os impactos sobre o comércio internacional da segunda onda da Covid-19 na Europa e também da capacidade do governo de controlar o déficit público a partir de medidas estruturais.

Quais consequências uma segunda onda da Covid-19 pode ter sobre a economia mineira e nacional?

Após o pico da Covid-19 ter passado e, com isso, as atividades econômicas poderem retornar é esperado para o terceiro trimestre de 2020 a recuperação da economia tanto no Brasil quanto em Minas Gerais. No entanto, com uma nova onda da epidemia que conduza novamente a uma necessidade de lockdown e ao isolamento social mais rígido, teremos novamente uma queda pronunciada da atividade econômica (a recuperação seria abortada) resultando possivelmente no movimento da curva associada à evolução real da economia no formato em “N” invertido. Nesse contexto, o setor de serviços seria novamente bastante afetado, sobretudo as atividades anteriormente listadas e que dependem da circulação e fluxo de pessoas (artes, cultura, esporte, recreação, cinema, teatro, salões de beleza, academia, hospedagem, bares, restaurantes, alimentação fora do domicílio, atividades turísticas, serviços prestados às famílias, transporte aéreo, etc).

O grande problema de uma segunda onda do coronavírus é que sufocaria ainda mais os estabelecimentos e empresas que “respiram” por “aparelhos” podendo resultar no fechamento definitivo de um conjunto ainda maior de organizações (muitas vezes pequenos negócios e aqueles que mais empregam). Nesse cenário, os efeitos seriam ainda mais severos e muito provavelmente, no segundo momento de retomada da atividade econômica, se leve um tempo ainda maior para voltar ao patamar que vigorava no período pré-pandemia.

O que esperamos é que a sociedade (governos, empresas e famílias) tenha sabedoria, aprenda com cidades e países que tiveram experiências exitosas e conduza da melhor forma a passagem por esse momento delicado.

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