Esse é um conteúdo de caráter opinativo, mas que busca compreender os possíveis efeitos do machismo na saúde mental da Mulher. Dados da OMS põem o Brasil numa posição de alerta ao colocá-lo na liderança do ranking de mulheres ansiosas em todo mundo e o com maior número de depressivas da América Latina. Será que depressão e machismo podem ter alguma relação?

A loucura feminina na história

Você já se perguntou se a loucura feminina é mesmo uma questão de doença mental, ou será que se trata de um processo de transgressão social mal compreendido? Segundo os autores Machado e Caleiro (2008), no artigo: “Loucura Feminina ou Transgressão Social?”, essa resposta remonta a um momento da história onde a normalidade estava diretamente associada a moral burguesa e às necessidades do Estado.

O filósofo francês Michel Foucault, no livro “História da loucura”, faz um traçado histórico do que se considerava loucura desde os tempos medievais. O autor detectou que essa definição variava conforme o tempo. No início, loucos eram os que davam vazão à sua animalidade. Essa visão evolui com o pensamento cartesiano, onde a loucura passa a servir a interesses.

Assim, a conceituação de normalidade funcionava como uma forma de controle e repressão social. Pode-se dizer que “loucos” eram todos aqueles que incomodavam a sociedade, que apresentavam um comportamento que não era o esperado ou determinado, o que incluía mulheres contestadoras. Essas marginais sociais eram consideradas perigosas, e quando não contidas, eram internadas em Hospitais Psiquiátricos, uma vez que seus comportamentos transgressores exigiriam tratamento na tentativa de retomar à “normalidade” original .

A esse exemplo, podemos citar a esculturista francesa Camile Clodel, considerada por muitos como um gênio da escultura. Entretanto, malgrado todo seu talento, Camile tinha comportamentos inadmissíveis para sua época. Aluna e amante de Rodin, famoso artista francês, era incompreendida pela forma como se expressava, tanto mais a sua arte.

Sabotada pela sociedade, amigos e críticos que não compreendiam sua genialidade, depois de um colapso nervoso em função de sua frustração por não conseguir expor e vender suas obras, foi internada pela família num hospício onde passou o resto dos seus 30 anos de vida. Se ela não era louca, com certeza ficou.

Sob essa perspectiva, a pesquisadora Betina Lima traz em voga o “Efeito Camille Claudel”, que reside na proposta de refletir aspectos das relações afetivas, em especial o papel da mulher no casamento, os quais se tornam barreiras à sua ascensão profissional. A autora relata as dificuldades experimentadas na tentativa de conseguir conciliar carreira e vida afetiva, seguindo os padrões exigidos. Assim, a autora utiliza a história de Camile Clodel para retratar de que modo a sua relação com Rodin lhe serve como auxílio, ao passo que a destrói.

O machismo e suas (novas) representações

Atualmente um novo conceito veio chamar a atenção para abusos que antes eram considerados normais, por fazer parte do comportamento cotidiano: O Gaslighting, que é considerado uma forma de agressão psicológica no qual as informações são distorcidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas ou omitidas, com o intuito de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, sanidade ou capacidade intelectual.

Abusos como este são muito frequentes em relacionamentos afetivos, especialmente quando há suspeita de traição.

Por séculos a mulher foi relegada a posição de cuidadora dos filhos e da casa. Tanto para política, quanto para igreja - e até para a medicina! - era considerada inferior, frágil, de temperamento duvidoso e natureza débil. Essa imagem prevalece até hoje, inclusive no imaginário feminino que insiste em defender posicionamentos misóginos. Embora o faça mais por ignorância e conveniência que por maldade, para a mulher, ainda hoje desobedecer ou expressar suas necessidades e desejos significa “estar louca”. Compreender o que é comportamento machista é o primeiro passo. O segundo é confiar que seus direitos precisam ser respeitados.

Mas, assumir essa responsabilidade não é fácil.

Espera-se da mulher um comportamento maternal, brando, submisso, permissivo e dócil sempre. Quando isso não é possível, culpam-se os desequilíbrios hormonais, a TPM, ou até mesmo o ciúme estimulado pela competição entre as “inimigas” que divide o gênero - como na estratégia de Guerra de Sun Tzu: “dividir para conquistar”. Esses atributos comportamentais femininos viraram objeto de piada e por todas as partes se escutam músicas que fazem as mulheres dançar e se divertir ao ritmo das próprias desgraças.

No ensaio: “As divas devem estar loucas: interrogações sobre as atuais nomeações à mulher”, a pesquisadora Iris Campos observou que em um juizado especial do Rio Grande do Sul, onde eram processados casos da Lei Maria da Penha, os homens costumavam utilizar o estado de ânimo das mulheres para justificar suas agressões: loucura.

Nas palavras da autora, “Longe de trabalhar no sentido de avalizar essas representações sociais que associam mulheres a condição de loucura e também encerram a posição de que para a loucura só resta o trato violento (...)”, ela traça uma extensa análise sobre esta questão na atualidade, concluindo que de bruxas as mulheres passaram à histéricas (conforme define Sigmund Freud) e de histéricas para loucas.

Estudos recentes, mas que ainda carecem de maior aprofundamento, sugerem que o machismo é um dos grandes responsáveis por gerar problemas como a ansiedade e a depressão entre as mulheres.

Segundo dados da OMS de 2017, atualmente, a depressão afeta 322 milhões de pessoas em todo o mundo, cerca de 4,4% da população mundial.

No Brasil, cerca de 11,5 milhões de pessoas têm depressão, e o país é o recordista em transtorno de ansiedade de toda América Latina, contando com 9,8% da sua população sofrendo desse mal. Segundo a OMS, o sexo feminino é o que mais sofre essas consequências com 7,7% e 5,1%, para depressão e ansiedade respectivamente. Nos homens, a porcentagem cai para 3,6% em ambos os casos. E, quanto mais doenças como esta, mais necessidade de remédios para o controle das funções nervosas.

Mas o que isso tem a ver com o machismo?

Estamos sedando nossas mulheres.

Nos bastidores das audiências da “Maria da Penha”, é possível inferir que os impasses sociais e, sobretudo, as representações de gênero voltadas às relações conjugais, o que também inclui a violência doméstica e de gênero, são os propulsores da crise nervosa com que se apresentam.

Para a pesquisadora Iris Campos, muitas mulheres aos poucos foram perdendo suas vozes e têm usado a depressão como uma forma de mascarar essa não expressão, entregando-se a um estado de conformidade e apatia que conduzem a necessidade de uma infinidade de psico fármacos a fim de amenizar a frustração nas esferas profissional, familiar e afetiva, especialmente. Segundo afirmação do Dr. Bernardo Ajzenberg, “No Brasil mesmo as mulheres são machistas, grande parte delas. Existe a ideia do predomínio masculino em praticamente todos os campos”.

Entretanto, malgrado os números alarmantes, há aquelas mulheres que se mantem resistindo e se fazem valer. Num mundo em grandes transformações, onde pela primeira vez a mulher encontra um canal de expressão, conhecimento e re-conhecimento de suas necessidades, autovalor e expressão criativa, ainda é preciso muito esclarecimento para compreendermos quão profundas são as teias que o machismo enreda.

Que possamos dar voz às nossas mulheres, ao invés de precisar sedá-las.

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