O leitor não deve criar grandes expectativas em relação ao filme “A Gangue” (“Pleyma”, 2014), coprodução ucraniana e holandesa, que causou frisson na abertura do Festival de Cannes deste ano. O título marca a estreia do diretor Miroslav Slaboshpitsky em longas metragens – ele já tinha quatro curtas-metragens no currículo, com seis premiações internacionais e outras cinco indicações – e tem como grande diferencial o uso da língua de sinais – não há legendas. Filmado, basicamente, em duas locações em Kiev, a produção tem andamento mais lento do que o público brasileiro está habituado e retrata a chegada de um jovem sem nome (Grigoriy Fesenko) ao internato local para surdos-mudos, seguido de seu ‘batismo de sangue’ pelos veteranos.

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Daí para frente, não há crueldade que o espectador brasileiro não conheça de filmes como “Carandiru” e “Cidade de Deus”, entre outros. Mas a produção nacional mais parecida com “A Gangue” é “Pixote: A Leio do Mais Fraco”, de 1981. Seja pela estética ou pelo ambiente em que a narrativa se passa, não é difícil fazer uma associação entre um e outro. No filme de Hector Babenco, a escolha de um menino de rua, Fernando Ramos da Silva, para viver o protagonista acabou em tragédia. Silva, que jamais se dissociou de Pixote, foi assassinado, aos 19 anos, com oito tiros por policiais da Rota – uma ação que foi muito contestada, na época.

Já Fesenko é “apenas” um ator surdo-mudo. Não emergiu da sarjeta e, dificilmente, acabará nela – como Rubens Sabino, o Neguinho de “Cidade de Deus”.

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Da mesma forma, a bela Yana Novikova não foi sacada de um prostíbulo.

“A Gangue” é o segundo filme em que Slaboshpitsky aborda a rotina de jovens ucranianos não-ouvintes, que vivem na periferia de Kiev. Seu curta “Glukhota” (“Deafness”, no circuito internacional), de 2010, também mostra uma faceta comum entre a ex-União Soviética e o Brasil: a corrupção policial e sua ação truculenta em relação às minorias. Outra coisa: não há cenas de sexo explícito, em “A Gangue” – que diz isso não viu o filme. Nas duas vezes em que Fesenko e Yana se relacionam no porão do internato, isso é retratado de forma implícita, sem imagens ginecológicas. O mesmo vale para uma cena, bem mais impressionante por sinal, de aborto.

De qualquer forma, o que mais impressiona no filme é a brutalidade de uma juventude que se parece muito com a nossa, gente sem muita perspectiva e que pratica toda forma de violência de modo ritualística, como quem não encontra outra forma de se manifestar. “A Gangue” transcorre de forma pouco envolvente e, no final, nos lembra que, para quem está habituado aos ‘Champinhas’ da vida, o ‘bullying’ ucraniano é fichinha. #Arte