O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, fez uma declaração ao jornal Valor Econômico, na terça-feira (3), em Brasília, negando o golpe militar de 1964. Vélez disse ainda que não houve uma ditadura militar no Brasil e que os livros didáticos deverão ser alterados para expor uma "versão mais ampla" sobre a história.

Na entrevista, ele chegou a afirmar que haverá "mudanças progressivas" nos livros didáticos, a fim de refletir um resgate do passado. Para o ministro, o que ocorreu entre 1964 e 1985 foi um "regime democrático de força".

A afirmação do colombiano naturalizado brasileiro foi criticada por historiadores e é parte de um movimento revisionista que se tornou oficial com a eleição do Governo de Bolsonaro. Esta não é a primeira declaração polêmica de Vélez, cuja permanência à frente do Ministério da Educação (MEC) ainda é incerta.

O que pesquisadores dizem

Na verdade, o resgate histórico por parte dos pesquisadores especializados tem, até hoje, reiterado o caráter ditatorial do regime militar brasileiro. O que se sabe a partir de suas publicações é que, além das prisões arbitrárias, torturas e assassinatos, foi precisamente durante o período que a corrupção se institucionalizou no governo do país, na medida em que a censura garantia que notícias do tipo não fossem divulgadas.

No livro "Os porões da contravenção", lançado em 2015, os jornalistas Aloy Jupiara e Chico Otavio explicam como o jogo do bicho se valeu da ditadura para crescer. Ainda segundo os autores, há grandes suspeitas, entre agentes públicos, de que escolas de samba ligadas a bicheiros foram usadas para lavagem de dinheiro. O livro conta com entrevistas com historiadores, advogados e pessoas que participaram de diversos esquemas à época.

Já naquele período haviam suspeitas do envolvimento de Paulo Maluf com a corrupção, além do excesso de mordomias gozadas pelos governantes, bancadas com dinheiro público. A Comissão Geral de Investigações (CGI), criada com o objetivo de punir corruptos, foi direcionada apenas à oposição, mas arquivou processos contra José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, por exemplo.

Em relação às torturas, de acordo com o livro, foram vítimas não apenas guerrilheiros e militantes, mas também militares, a exemplo de Rui Moreira Lima.

Piloto de caça durante a Segunda Guerra Mundial, o brigadeiro foi deposto e teve sua família perseguida por se opor ao golpe de 1964.

Apesar de, oficialmente, a Comissão da Verdade reconhecer 434 mortes por perseguição política durante o período, uma matéria da Revista Istoé, publicada em 2012, aponta indícios de que o número foi 3,5 vezes maior.

Instabilidade no MEC

Indicado pelo escritor e astrólogo Olavo de Carvalho, desde que assumiu o cargo, o ministro coleciona decisões das quais recuou após ser questionado. Além de ter nomeado e demitido, em pouco tempo, diversas pessoas, Vélez mostra inclinações ideológicas em suas tentativas de gerir o MEC.

Durante a Comissão de Educação na Câmara, no dia 27 de março, o ministro teve sua renúncia ou demissão solicitada por vários dos deputados presentes. Com a imagem desgastada, Vélez ainda precisa lidar com as dificuldades de viabilizar o ENEM este ano, após a gráfica responsável pela impressão e logística da prova, RR Donnelley, decretar falência e fechar suas portas.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, já passou por quatro trocas de presidência apenas este ano. Apesar das mudanças, em nota, o órgão garantiu a manutenção das provas, previstas para acontecer em novembro.

A impressão do ENEM deveria começar em maio, mesmo período para o qual estão marcadas as inscrições (que vão do dia 6 ao dia 17).

Embora Vélez seja considerado, por diversos parlamentares, inepto para o cargo, a ministra Damares Alves o elogiou nesta terça (2). No lançamento da Frente Parlamentar em Defesa do Homeschooling, ela o chamou de "extraordinário" e agradeceu a Deus por sua atuação.

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