Foi arquivado, nesta segunda-feira (17), um processo administrativo sofrido pela professora Virginia Ferreira, que dá aulas de inglês na rede pública municipal da cidade de Vinhedo, interior de São Paulo. Sem saber, ela foi filmada por uma aluna enquanto lecionava na Escola Municipal Professor Ricardo Junco e acusada pelo pai da estudante de doutrinação, por promover feminismo e "ideologia de gênero".

A filmagem foi realizada no ano passado, enquanto Ferreira conversava sobre a violência contra a Mulher, a fim de solicitar aos estudantes que fizessem uma atividade sobre feminismo em decorrência do Dia Internacional da Mulher, que estava por vir.

A professora pediu a uma turma de 8º ano (composta por adolescentes de 13 a 15 anos) que respondesse a um questionário sobre as principais correntes e conceitos do feminismo, como pano de fundo para estudar estrangeirismos (uso de palavras em inglês adaptadas ao português), conforme indicado no livro didático.

Segundo conta ao jornal El País, Ferreira foi avisada pela diretora da escola que houve reclamação de mães de alguns alunos e, depois, foi informada que precisaria prestar esclarecimentos à Secretaria de Educação, pois um pai apresentara denúncia contra ela na Ouvidoria.

A denúncia do pai, usando do vídeo gravado por sua filha, alegava que a professora usava de suas aulas para ensinar sobre feminismo e "ideologia de gênero" e, ainda, que se comunicava com os alunos em português. Ferreira se defendeu, explicando que é necessário se comunicar em português em sala porque os conhecimentos de cada estudante em relação à língua estrangeira são variados, sendo preciso mediar todo o conteúdo por meio da língua nativa.

Ela acrescenta que, para se ensinar um outro idioma, é prática comum abordar temas diferenciados, que estimulem o diálogo entre os adolescentes. Ao falar sobre a violência contra a mulher, Ferreira estaria promovendo a aproximação com a experiência de mundo, uma vez que, de acordo com ela, na própria escola existem jovens que testemunham agressões dentro de casa.

Áudio exposto pelo MBL

À época do ocorrido, o Movimento Brasil Livre (MBL) de Vinhedo publicou em sua página nas redes sociais o áudio da filmagem que a aluna havia realizado de Ferreira.

Em tom de denúncia, o MBL diz que a professora havia sido flagrada doutrinando os estudantes, em vez de ensinar inglês. A página destaca, ainda, a filiação de Ferreira ao PSOL e que, ao falar sobre feminismo, estaria "subvertendo valores para impor sua visão política".

O caso foi ainda comentado por Fernando Holiday, vereador de São Paulo, então filiado ao DEM, e também por Rubens Nunes, filiado ao MDB e presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Vereadores de Vinhedo. Nunes é pai de Rubinho Nunes, que fundou o MBL juntamente com Renan dos Santos.

Processo disciplinar

Uma vez protocolada a reclamação do pai na Secretaria de Educação, deu-se início à averiguação do caso, acompanhada pelo vereador Rubens Nunes, que solicitou a presença do secretário de Educação, Gilberto Lorenzon, para prestar esclarecimentos na Câmara.

Ferreira foi amparada pelo Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), da Defensoria Pública de São Paulo, e a advocacia de Vinhedo sugeriu o arquivamento da denúncia, pedido que foi rejeitado pela Secretaria de Educação e pela Controladoria Geral do Município. O processo administrativo foi aberto em agosto de 2019.

Virginia Ferreira foi investigada por negligência e conta que, durante os depoimentos, ouviu do pai que a havia denunciado que este ainda teria "muita coisa" contra ela. O processo, no entanto, foi arquivado depois de as investigações apontarem que não houve irregularidade.

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