Servidores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) denunciaram, na última semana, que foram alvo de pressões ideológicas durante a formulação das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As alegações foram confirmadas por dois funcionários que pediram demissão de seus cargos, em entrevista ao portal G1 divulgada na sexta-feira (12).

Afirmando que têm sofrido vigilância velada e pressão para que não escolhessem temas que pudessem desagradar o Governo Bolsonaro, os servidores encaminharam suas denúncias aos deputados da Frente Parlamentar Mista de Educação.

Na última segunda-feira, 8, ocupantes de 37 dos 110 cargos comissionados no Inep pediram exoneração. 27 deles estavam em funções de coordenação do Enem. Os servidores apontaram a gestão do presidente do órgão, Danilo Dupas, como motivo para a entrega dos cargos.

Demissões estão sendo apuradas

Para apurar o ocorrido, o deputado federal e professor Israel Batista (PV-DF), que faz parte da Frente Parlamentar, protocolou denúncia contra Dupas na Comissão de Ética Pública da Presidência da República na quarta, 10. Entre os apontamentos da denúncia estavam a censura ideológica na escolha das questões do Enem e indícios de critérios político-ideológicos para a elaboração da prova.

Segundo um dos demissionários, que pediu anonimidade ao G1, os critérios para a seleção dos itens da prova não foram esclarecidos e alguns temas não foram abordados por incomodarem o presidente Jair Bolsonaro.

Outro parlamentar da Frente de Educação, Felipe Rigoni (sem partido), confirmou as alegações, apontando que haveria "vigilância ideológica" e assédio moral dentro do Inep, tendo inclusive levado funcionários a precisarem de licença médica.

Na terça-feira, 9, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (Progressistas-PR), disse que a demissão coletiva dos servidores do Inep tinha motivações ideológicas.

Sua fala foi rebatida por Alexandre Retamal, presidente da Associação dos Servidores do Inep (Assinep), que afirmou haver uma insatisfação geral entre servidores de diversos órgãos públicos.

Histórico de conteúdo censurado

Em 2019, uma comissão criada pelo governo, a fim de avaliar o conteúdo do banco de questões do Enem, sugeriu que 66 questões não fossem utilizadas na prova.

As justificativas alegavam "leitura direcionada" da história e do contexto geopolítico, além de "polêmica desnecessária", mas o parecer emitido à Câmara não apresentava o conteúdo dos itens. Até hoje, o conteúdo dessas questões não foi divulgado. 29 delas eram da área de Ciências Humanas e 28 da área de Linguagens.

Apesar da crise, a realização do Enem 2021 se mantém nos dias 21 e 28 de novembro. Com 3,4 milhões de inscritos, o número de estudantes confirmados é o menor desde 2005.