Agentes da Polícia Federal cumpriram na manhã desta quinta-feira (21) oito mandados de busca e apreensão referentes ao caso de Marielle Franco e Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. A ação se deve a possíveis obstruções colocadas em prática para dificultar as investigações do assassinato da vereadora e do seu motorista.

A parlamentar do PSOL foi vítima de uma emboscada no dia 14 de março de 2018 em que ela e Anderson foram mortos a tiros. No carro estava também uma assessora de Marielle, que escapou com vida.

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A princípio, as investigações apontavam para o envolvimento de um miliciano, Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curicica, e do vereador Marcelo Sicilliano, do PHS-RJ, que teria sido o mandante da execução. Em outubro de 2018, contudo, Orlando Curicica teria relatado a Raquel Dodge, Procuradora-Geral da República, que estaria sendo coagido a confessar ser o autor do crime pela Delegacia de Homicídios (DH) do Rio de Janeiro.

Novas suspeitas

A suspeita, agora, é de que haveria um esquema de pagamento mensal a oficiais da Polícia especializada para que o caso não seja esclarecido.

Após pedido realizado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), os mandados foram autorizados pelo Tribunal de Justiça do estado (TJRJ).

De acordo com O Globo, em carta enviada por Orlando Curicica respondendo perguntas feitas pelo jornal em outubro de 2018, a DH da Polícia Civil recebia um valor fixo de R$ 200 mil mensais quando o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil, comandava a Divisão de Homicídios. Além da mesada estabelecida, outras propinas eram negociadas quando investigadores conseguiram imagens que pudessem identificar assassinos e servir como prova em julgamentos.

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Em nota, o delegado Rivaldo Barbosa repudiou as acusações do miliciano, alegando que Orlando estaria colocando em risco a seriedade das investigações. Ainda de acordo com Barbosa, a testemunha teve amplas oportunidades para trabalhar com os investigadores conforme as determinações legais.

Orlando Curicica, que é ex-agente da Polícia Militar, está preso desde outubro de 2017 e responde por 12 homicídios. Em maio do ano passado, com a deflagração das investigações do caso de Marielle Franco, o miliciano foi transferido para o Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Relações com Flávio Bolsonaro

Mantido sob sigilo, o caso voltou a ser amplamente abordado pela mídia em janeiro deste ano, quando agentes da Divisão de Homicídios iniciaram uma operação para cumprir mandados de prisão de diversos milicianos no estado do Rio e também em Juiz de Fora, Minas Gerais. Em 22 de janeiro, a Operação Intocáveis prendeu integrantes de uma organização conhecida como Escritório do Crime, que atuava na zona oeste do Rio, em comunidades como Rio das Pedras e Muzema.

Dos mandados, a polícia cumpriu oito, mas um dos líderes da organização, Adriano Magalhães da Nóbrega, permanece foragido.

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Ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Adriano foi homenageado por Flávio Bolsonaro em 2003, quando este era deputado estadual. A mãe e a esposa do foragido eram empregadas, até novembro de 2018, no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo o ex-deputado, eleito senador, a contratação das duas foi feita por Fabrício Queiroz, investigado por lavagem de dinheiro.

O PM reformado Fabrício Queiroz, que atuava como assessor e motorista de Flávio Bolsonaro, teria se escondido justamente na comunidade de Rio das Pedras durante as investigações que o apontavam como laranja em um esquema de repasse de salários dentro da Alerj.

Investigação ainda sob sigilo

Em nota, a Polícia Federal esclareceu que sua atuação diz respeito apenas à obstrução das investigações, que permanecem sob sigilo. Os mandados dizem respeito à busca de provas que inocentem Orlando Curicica e o vereador Marcelo Siciliano em relação ao crime contra a vereadora.

A apuração da autoria dos assassinatos permanece sob responsabilidade da Divisão de Homicídios da Polícia Civil e dos órgãos estaduais de segurança.