Uma amiga me enviou um artigo publicado em agosto de 2018 no jornal espanhol El País que tinha o seguinte subtítulo: “Se o patriarcado é um veneno para a igualdade, o envolvimento do pai na criação dos filhos é um dos melhores antídotos de que dispomos na atualidade”.

Lembrei de meu pai, um homem extremamente dedicado à família e capaz de gestos docemente simbólicos, como procurar um graveto para desvirar um besouro que se contorcia com as patinhas para cima no meio da calçada (“coitado do bichinho”, dizia). Porém, com uma dificuldade enorme em expressar sentimentos. Esta dicotomia vai ao encontro do que diz o sociólogo britânico Victor Seidler, especialista em gênero e masculinidade.

Conforme Seidler, para sustentar sua autoridade paterna no sistema patriarcal, os homens eram estimulados a manter distância dos filhos, até como prova de masculinidade, o que normalmente impedia a criação de laços baseados na afetividade. Por isto, na visão do sociólogo, a relação emocional, que hoje os pais estão redescobrindo em relação a seus filhos e filhas, representa uma mudança duradoura e profunda nas relações familiares.

O Patriarcado como missão

Isto me fez recordar de um outro texto que li, cujo título era: “Os 7 ‘P’s da violência masculina” (The 7 P’s Of Men’s Violence). Onde o primeiro P era exatamente o patriarcado. Um dos pontos que me fizeram pensar foi a afirmação de que a internalização da violência era o dado mais cruel, pois tirava do menino a capacidade de ser emocionalmente “inteiro”.

O preço a pagar para ser um exemplo de autoridade masculina era abdicar do envolvimento emocional com seus filhos.

Para fugir desta armadilha, a paternidade ativa deve buscar exatamente a proximidade e o comprometimento emocional. Só que não basta “dar uma força” e é este o ponto. Uma pesquisa de 2016 do instituto britânico ODI (Overseas Development Institute) mostra que, quando somadas as responsabilidades remuneradas e não pagas, as mulheres trabalham, em média, cinco semanas a mais por ano do que os homens.

Dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), apontam que 40% dos lares brasileiros são sustentados por mulheres, sendo que, em cerca de 12 milhões de famílias, as mulheres estão sem companheiros com quem dividir a responsabilidade sobre os filhos. O estudo avalia ainda, que esse panorama agrava “o risco de vulnerabilidade social, já que a renda média das mulheres, especialmente a das mulheres negras, continua bastante inferior não só à dos homens, como à das mulheres brancas”.

Paternidade ativa como alternativa

Em resumo, para alcançar uma igualdade verdadeira entre homens e mulheres, o equilíbrio das responsabilidades dentro da casa tem de ser tão prioritário quanto deveria ser no âmbito profissional. Mas, na realidade, a relação de homens e mulheres com o mercado de trabalho continua significativamente desigual. Então cabe a nós, homens, a tarefa de perseverar. Não esquecendo que o trajeto tem desafios com os quais talvez ainda não saibamos lidar.

O que eu quero é ser feliz

Como recompensa, além do empoderamento das nossas filhas e da redução da violência doméstica, há também o desenvolvimento de relações emocionais profundas. E, como buscar felicidade é um direito de todos, vale destacar ainda que a Paternidade ativa contribui para a saúde física e mental do homem.

Pais que tem relacionamentos profundos e não violentos com seus filhos apresentam, segundo estudos, menos ansiedade, sofrem menos acidentes no trabalho e abusam menos de álcool e outras drogas.

Felicidade é um bom motivo para ser um pai presente, certo?

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