Jéssica* era uma criança de apenas 13 anos, que teve a vida roubada por quem deveria protegê-la, o próprio pai. Abusada pelo pai por um longo período, ela engravidou quando tinha apenas 12 anos. A menina se tornou mãe, dando à luz alguns meses depois, porém, devido ao alto risco imposto pela gestação precoce, ela morreu. As informações são da BBC News Brasil.

Assistência social

A jovem Jéssica morava na cidade de Coari, no interior do Amazonas. Após a constatação da gestação, a menina prestou depoimento e conversou com assistentes sociais, quando relatou que o pai a abusava fazia muito tempo e, durante anos, os abusos aconteciam sempre que ela ficava sozinha com ele.

A menina morava com seus pais e cinco irmãos, porém, sempre que sua mãe precisava viajar para a cidade o pai aproveitava o momento sem a presença da esposa e de seus outros filhos para cometer os abusos.

De acordo com a assistente social, Jéssica contou que sempre que seu pai cometia os abusos, ela chorava muito e suplicava para que ele parasse de fazer aquilo com ela. "Pelo amor de Deus", ela dizia.

Prisão

O pai, que fugiu quando foi descoberto pelas autoridades, hoje está preso e continua negando que abusou da própria filha, porém o exame de DNA realizado na criança comprovou que ele era o pai e avô biológico do bebê.

De acordo com um agente de saúde que prestou depoimento à Polícia, Jéssica nem imaginava que estava grávida, mas reclamava de dores, apresentava-se bastante abatida, tinha tonturas e apresentou uma queda significativa no rendimento escolar.

Um tempo depois a barriga começou a crescer, até que perceberam que o problema da menina era que ela estava grávida, foi ai que a família descobriu que o próprio pai a violentava, revoltando-se contra o homem.

Gestação

De acordo com reportagem apurada pela BBC News Brasil, que teve acesso às documentações do caso de Jéssica, a gravidez foi descoberta no final do mês de agosto do ano passado e, no mês de setembro, sua mãe a levou no Creas (Centro de Referência de Assistência Social) da cidade.

Em depoimento, a menina disse que o pai era um monstro e uma pessoa cínica. Ele alegava que se ela contasse sobre os abusos, além de não acreditar, a mãe iria agredi-la. Na instituição, a menina passou a receber apoio psicológico e foi constatado que ela já estava grávida de cinco meses.

Os abusos

De acordo com Jéssica, quando ela tinha apenas 9 anos saiu para colher castanhas com seu pai e, aproveitando que eles estavam em um lugar distante, iniciou os abusos e tocou suas partes íntimas.

Logo, os abusos começaram e o pai chegava a levar a filha para pescar e, escolhendo lugares calmos e afastados, cometia os abusos e assim foi sua rotina até que engravidasse.

O delegado José Afonso Ribeiro Barradas Junior diz que ela tinha muito medo de contar o que estava acontecendo e as pessoas não acreditarem nela.

A mãe, desde a descoberta, nega que soubesse ou tivesse desconfiado dos abusos. A mãe, Maria*, de 29 anos, se casou com Lauro*, de 36, quando era apenas uma jovem de 15 anos e engravidou de Jéssica, a filha mais velha do casal.

Maria, em contato com a BBC News Brasil, diz que notou diferenças em Jéssica, que ela estava rebelde e bastante triste, mas sem saber dos fatos acreditava que ela estava doente, com um quadro de anemia, percebendo a gravidez quando os seios e barriga começaram a mudar.

Em conversa com o avô, a menina acabou contando sobre os abusos cometidos pelo próprio pai e que eles já ocorriam há quase cinco anos.

Maria

A mãe relatou que ficou indignada com a situação, porém, de acordo com os documentos de início, Maria não queria prestar queixa contra o marido pois ainda acreditava que o pai da criança pudesse ser outra pessoa. A família então acabou pressionando a mãe que fez a denúncia. Logo após a divulgação do caso Lauro fugiu da cidade.

Mudança de versão

No mês de novembro, Jéssica prestou um novo depoimento à polícia, quando mudou a versão inicial e disse que ele a acariciou porém parou quando ela pediu e que ele tentou abusar dela sem sucesso e que o bebê que carregava não era do pai e sim de um idoso que teria morado com sua família durante alguns meses.

Ainda em depoimento, ela relatou que o pai nunca havia a abusado e que inventou que ele era o pai do bebê por se sentir pressionada.

Tanto o Ministério Público quanto a Polícia Cvivil acreditam que Jéssica foi coagida a mudar a versão e afirmam que isso ocorre frequentemente em casos de abuso infantil, quando os responsáveis tentam culpabilizar um terceiro para livrar o pai, principalmente quando toda a família depende financeiramente dele.

Aborto

De acordo com a documentação, nenhum pedido de aborto foi realizado neste caso e o desejo de manter a gestação teria partido da menina, que dizia amar o bebê.

Wesley Machado, um dos promotores do caso, diz que no processo consta a informação de que a família era cristã, o que, de acordo com ele, deve ter influenciado diretamente na decisão de levar a gestação adiante, mesmo que o aborto lhe fosse garantido pela lei.

Jovens que engravidam entre 10 e 15 anos desenvolvem gestações de alto risco e tem quatro vezes a mais comparadas a uma Mulher mais velha de morrer em decorrência do parto. Isso se dá porque o corpo ainda se encontra em fase de desenvolvimento.

Parto

Jéssica foi submetida a uma cesária de emergência no mês de dezembro devido a um quadro grave de anemia desenvolvido por ela. O bebê então nasceu no oitavo mês.

No dia 11 de dezembro, a menina de apenas 13 anos não resistiu a todo o processo e, desde o início da gestação, apresentando complicações, ela desenvolveu pré-eclâmpsia e um quadro de infecção generalizada que a levaram a morte.

O pai foi preso 9 dias após a morte de Jéssica e, embora negue as acusações, o exame de DNA comprovou que o bebê era sim filho dele.

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade da jovem e da família.

Siga a página Polícia
Seguir
Siga a página Mulher
Seguir
Não perca a nossa página no Facebook!